- É hora de investir no Brasil
Passado o assombro inicial dos ataques terroristas,
o governo norte-americano começou a dar fortes ao mundo empresarial
de que vai reagir e se recuperar da tragédia, que veio se
juntar ao princípio de recessão econômica. Numa
medida de impacto, o Fed baixou a taxa de juros para 3%. Uma verba
de US$ 15 bilhões foi anunciada de pronto para minimizar
os prejuízos das companhias aéreas e outras “ajudas”
estão sendo acertadas, de modo a injetar fantásticos
US$ 340 bilhões nas economias americana e mundial.
No Brasil, no entanto, a única iniciativa para desviar o
país do caminho da recessão vinha sendo discutida
antes mesmo dos atentados e não ataca os problemas estruturais
que emperram a produção. A Câmara de Gestão
de Comércio Exterior, com sua anunciada disposição
de desonerar, facilitar e financiar a exportação,
é, sem dúvida, louvável. Mas só isso
não basta. Há meses a agenda nacional vem sendo ocupada
pela guerra travada no Senado e pelo debate sobre possíveis
candidatos à sucessão de Fernando Henrique Cardoso,
como se esses fossem os assuntos mais importantes agora.
Enquanto isso a taxa de juros permanece em níveis insuportáveis
para quem quer se dedicar à atividade produtiva. As discussões
no Congresso não contemplam os projetos de grande interesse
da indústria nacional, como as reformas tributária,
fiscal, previdenciária e trabalhista. No horizonte, só
se vê mais e mais tributação, que onera a produção
legal e estimula a informalidade e a sonegação de
quem quer também fazer crescer o mercado interno.
O tom sobre as decisões de mercado está sendo dado
pelas matrizes das empresas transnacionais aqui instaladas. E isso
precisa ser invertido.
Nesse cenário internacional conturbado, o Brasil tem que
se apresentar como a grande alternativa para investidores de todo
o mundo. Estamos numa posição geográfica privilegiada
e temos grande produção de grãos e alimentos,
o que no dá autonomia para enfrentar bloqueios, interrupções
ou qualquer tipo de cerceamento ao livre comércio de mercadorias.
E com as dificuldades de fazer negócios no mercado internacional,
poderá haver uma abertura para a expansão do mercado
interno.
O conflito talvez nos obrigue a procurar novos mercados para a exportação
de outros produtos nacionais, ampliando um leque hoje restrito a
duas dezenas de itens de grande exportação, entre
eles minérios, soja, calçados, automóveis,
carne e aviões.
A alta do dólar favorece a indústria nacional, que
fica com preços mais competitivos no mercado internacional.
Essa é a hora de o empresário investir mais no Brasil,
aumentar a produção e criar empregos. Produzir mais,
para vender lá fora e aqui dentro.
O governo, por meio de instrumentos fiscais, também deveria
aproveitar o momento para trazer de volta o capital de brasileiros
que investiram no exterior. O mais seguro, hoje, não é
comprar dólar, o seguro é investir em um país
seguro. Em um país imune a grandes conflitos étnicos,
raciais e religiosos.
Mesmo a questão da violência urbana não se aplica
a regiões que poderiam ter ampliado seus potenciais turístico
e econômico. É o caso das capitais do Norte e do Nordeste,
que deveriam ter seus aeroportos ampliados e modernizados já.
Só assim eles poderiam fazer parte de rotas alternativas
que poderiam ser criadas pelas companhias aéreas. Por enquanto
os estrangeiros só têm duas alternativas para conhecer
as belezas de Salvador, Recife, Fortaleza ou Manaus, salvo um ou
outro esporádico vôo direto: fretam um charter ou fazem
conexão em São Paulo e Rio de Janeiro.
Nesse caso, como bem lembrou o ministro do Desenvolvimento, Sérgio
Amaral, o turista ou investidor estrangeiro terá de enfrentar
uma viagem interna quase tão demorada quanto a viagem internacional.
Com a modernização de portos e aeroportos brasileiros,
com certeza, viria a ampliação de serviços
de hotelaria e outros negócios.
A hidrovia Araguaia-Tocantins, por exemplo, que há anos vem
sendo discutida, abriria um enorme e fácil canal de exportação
para os produtos do Centro-Oeste e do Norte e permitiria a criação
de novos pólos de desenvolvimento.
Está provado que a Amazônia tem um potencial de desenvolvimento
sustentável que poderia render ao país US$ 1,2 trilhão,
o que praticamente dobraria o PIB. Temos de integrar mais os mercados
do país, descobrir novos fornecedores fora dos grandes centros
industriais.
Sem pânico e com racionalidade governamental e empresarial,
o Brasil pode se sair bem nesse conflito mundial.
Folha de S. Paulo, 29/9/2001
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