- A indústria a serviço do Brasil
As propostas de política econômica
e social apresentadas pela Fiesp (Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo) para debate com os candidatos à
presidência da República é uma iniciativa louvável
e não pode morrer na Quarta-Feira de Cinzas. Demonstra, antes
de tudo, que a entidade, no melhor espírito industrial, estava
trabalhando enquanto boa parte do país se dedicava às
férias de verão.
Apesar de ser uma entidade regional, a Fiesp coloca em debate idéias
que devem ser discutidas não só com os candidatos
à Presidência da República. A proposta ganhará
ainda mais peso se mais entidades, empresários e demais segmentos
da sociedade se mobilizarem para discuti-la. Qualquer negociação
com candidatos ou governos ganhará muito mais respaldo se
for abraçada por demais entidades e conseguir promover a
unidade empresarial.
Além disso, é importante lembrar que também
serão eleitos deputados estaduais e federais, senadores e
governadores de Estado, que são pessoas fundamentais para
o sucesso de qualquer política econômica e social.
Quanto mais agentes políticos se envolverem nessa discussão,
mais ela poderá se transformar em realidade.
Mas, junto das metas que gostaria de ver alcançadas, a indústria
precisa apresentar uma agenda de ações que deveriam
ser desenvolvidas pelas empresas em assuntos como educação,
meio ambiente e responsabilidade social. As empresas devem assumir
compromissos com a educação e a requalificação
de seus funcionários e parentes próximos. Precisam
erradicar ou reduzir ao máximo a poluição ambiental
no processo produtivo. E devem recusar apoio a candidatos que não
tenham compromissos com a transformação da sociedade.
Só assim a indústria poderá exigir a contrapartida
dos governantes.
Afinal, qual candidato se colocará contra uma proposta que,
entre outras coisas, pede o crescimento da economia, aumento da
taxa de escolarização, criação de 4,8
milhões de empregos, redução da pobreza e da
mortalidade infantil? A forma como isso deverá ser feito
é que precisa ser esmiuçada.
A meu ver, o empresariado brasileiro sente a necessidade de definição
do eixo do modelo de desenvolvimento do capitalismo nacional.
Nesse sentido, o Estado e o futuro presidente da República
precisam se comprometer também com o apoio a empresas de
tecnologia de ponta, que se mostrem competitivas tanto no mercado
interno como no mercado externo. É preciso estimular o crescimento
de empresas nas quais o centro de decisão esteja em território
nacional. Para isso existe o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social). As empresas estrangeiras podem muito
bem – e têm condições para isso –
obter financiamento em seus países de origem ou em grandes
centros bancários.
Qualquer iniciado sabe que quase metade da economia nacional vive
na informalidade. Até quando vamos conviver com isso? Ao
invés de criar novos tributos, como vem fazendo ao longo
dos anos, o governo precisa simplificar a legislação
tributária. E, como propõe o documento da Fiesp, acabar
com os impostos em cascata que só oneram e tiram a competitividade
do setor produtivo. Em um primeiro momento a arrecadação
da Receita Federal poderá até cair um pouco. Mas,
ao longo do tempo, a base de arrecadação irá
aumentar com o ingresso de novos contribuintes. Novas – pequenas,
médias ou grandes – empresas no mercado significam
a abertura de novas oportunidades de trabalho e perspectiva de crescimento
de renda da população.
Além de incentivar e legalizar novas empresas, as ações
do novo governo devem estar voltadas para a descentralização
desse desenvolvimento. Ou seja: indústrias com tecnologia
de ponta e as que vivem na informalidade teriam novas formas de
tributação desde que se instalassem em cidades do
Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. Algo que se assemelhasse
ao Simples, que hoje só é oferecido às microempresas.
Medidas práticas como essas precisam vir acompanhadas de
compromissos claros sobre temas como a redução da
taxa de juros e as reformas tributária, previdenciária
e trabalhista. Algum candidato acha possível manter um sistema
previdenciário que aposenta servidores públicos com
salário integral e impõe um teto para os trabalhadores
da iniciativa privada? Se ele existe, não deve ser o candidato
da indústria.
Em vez de recolher o Fundo de Garantia para os cofres da Caixa Econômica
Federal, por que não colocar esse dinheiro diretamente no
bolso do trabalhador? Afinal, o suposto financiamento habitacional
para a população de baixa renda não é
exatamente o forte da Caixa Econômica?
Só o aumento da oferta de oportunidades e da renda do trabalhador
brasileiro irá ajudar a reduzir um mal que hoje tanto aflige
a sociedade: a violência. Ninguém mais pode fingir,
se quiser continuar morando no Brasil, que ignora essa realidade.
Além de apresentar propostas para fazer crescer a economia,
a indústria também tem o direito de fiscalizar o aparato
estatal e exigir o cumprimento das suas obrigações
para com a sociedade. A máquina pública tem o péssimo
hábito de demorar a responder às necessidades da população.
O que se espera é que as demais entidades empresariais tenham
uma postura diferente e abracem o debate proposto pela Fiesp, em
vez de ficarem esperando pelas promessas que serão veiculadas
durante a campanha eleitoral.
Folha de S. Paulo, 18/2/2002, Tendências/Debates
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