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OPINIÃO

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  • Para onde vai a siderurgia mineira?

O complexo siderúrgico mineiro é responsável por 40% da produção siderúrgica brasileira. A isso podemos acrescentar que as empresas mineiras do setor, incluindo as de mineração, ferro-gusa e fundidos de ferro, exportam mais de US$ 3 bilhões por ano. E o que talvez seja mais importante: empregam diretamente mais de 200 mil pessoas e indiretamente quase um milhão. Há cidades inteiras, como João Monlevade, Ipatinga, Timóteo, Ouro Branco, Congonhas e outras do Oeste mineiro, que vivem principalmente dessa atividade. Minério, ferro e produtos siderúrgicos foram e, em muitas regiões, continuam sendo o eixo central do desenvolvimento mineiro.
O Estado desenvolveu sua siderurgia nos primórdios da industrialização brasileira. O Barão de Eschwege, que hoje só é lembrado por uma medalha, entregue com certa parcimônia aos siderurgistas nacionais, e por um modestíssimo monumento em beira de estrada, perto de Congonhas, deixou profundas raízes na economia mineira.
Mais do que ele, foi também importante a Escola de Minas de Ouro Preto. Nela se formou a mais importante elite tecnológica do Brasil independente e republicano. Não só a siderurgia brasileira foi comandada pelos técnicos dessa escola, dirigida por Henri Gorceix. O mesmo aconteceu com a engenharia. Os técnicos e administradores formados em Ouro Preto deram novo impulso ao país.
Historicamente, também é importante lembrar a fundação, em Sabará, na década de 20 no século passado, da Cia. Siderúrgica Mineira, primeira joint venture com o grupo Arbed (na época, luxemburguesa). Minas teve suas empresas siderúrgicas empreendedoras, mas, por razões próprias, fez associações com grupos estrangeiros. Na década de 50 veio para perto de Belo Horizonte, pelas mãos de JK, a então siderúrgica alemã Mannesmann, que é hoje francesa. No Oeste de Minas se organizavam altos-fornos e fundições de ferro. E prosperava a estatal Cia. Vale do Rio Doce em Itabira, a Acesita em Timóteo, a Usiminas em Ipatinga e a Açominas em Ouro Branco.
Destacavam-se ainda a Siderúrgica Pains, em Divinópolis, fundada pelo Cel. Jovelino Rabelo, a Siderúrgica Mendes Jr., em Juiz de Fora, fundada por Murilo Mendes, e o grupo Itaunense, com sua usina em Itaúna. Crescia o número de minerações, grandes e pequenas, como a Ferteco e a Casa de Pedras, da Cia. Siderúrgica Nacional, e de grupos como a Itaminas, a Lafersa e numerosas fundições e fábricas de produtos siderúrgicos.
Desenvolveu-se a tecnologia do carvão vegetal, formou-se o Departamento de Engenharia Metalúrgica da UFMG. Do ponto de vista empreendedor e empresarial, foi implantado um modelo misto, composto de pequenas e médias empresas do complexo mínero-metálico-siderúrgico, controladas por empresários mineiros, e de grandes empresas controladas pelo governo federal e por capitais estrangeiros.
Em décadas não tão distantes era importantíssimo para o desenvolvimento de Minas ter titulares nos ministérios da Indústria e Comércio e das Minas e Energia, que controlavam a siderurgia e a mineração estatais. Era de lá que provinham os recursos e o comando da Siderbrás, da Cia. Vale do Rio Doce, Usiminas, Acesita, Açominas, etc. Formaram-se em Minas administradores públicos admirados pelo país, com o ministro Camilo Penna, e administradores de empresas públicas excelentes, como Amaro Lanari.
A opção estratégica foi dominar as empresas estatais e seus projetos em relação ao desenvolvimento de Minas. Ao mesmo tempo, desenvolver as empresas estrangeiras, seja na área de mineração ou de siderurgia. Uma terceira opção estratégica da maior importância foi agregar valor às matérias-primas. Não só transformar minério em chapa de aço, mas também chapa de aço em algo mais valioso. Transformar minério de ferro de US$ 15 a tonelada em bens de US$ 15 mil a tonelada, como automóveis, máquinas e transformadores. Para isso era preciso ser competitivo, competente e produtivo. Estar sempre olhando para o futuro e para o mercado mundial. O caminho da indústria mineira é produzir para o mundo.
E como está esse mundo hoje? Primeiro, o mundo que ficava atrás das montanhas veio para as montanhas e vales. Minas faz parte do mundo desenvolvido no contexto siderúrgico-mineral. Não há mais empresas estatais, as empresas estrangeiras mudaram de mãos. A alemã Mannesmann é hoje a francesa Vallourec. A estatal Acesita é hoje a franco-luxemburguesa Arcelor, a quem pertence também a Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira, que estampa hoje em seus produtos a marca Belgo e que tem forte associação, já há algum tempo, com a belga Bekaert na área de fios e arames.
A Cia. Vale do Rio Doce pertence a um grupo de acionistas, entre eles o Bradesco, que também é acionista da Usiminas, junto com a Camargo Correia, a Votorantim, a Nippon Steel, pioneira na associação inicial da empresa, e a Caixa dos Funcionários da siderúrgica. E a Usiminas tem participação majoritária na tradicional Cia. Siderúrgica Paulista (Cosipa), hoje modernizada. A Açominas pertence a uma associação de funcionários, a um grupo de Cingapura e, majoritariamente, ao grupo Gerdau. Esse grupo ainda tem a antiga Cia. Siderúrgica Pains, em Divinópolis, e uma usina em Barão de Cocais.
Nesse emaranhado acionário, não se pode desprezar o fato de que a maioria das usinas de ferro-gusa pertence a empresários mineiros, e que a maior parte das fundições e pequenas minerações pertencem também aos mineiros. O fato de a Cia. Siderúrgica Nacional se fundir com o grupo anglo-holandês Corus quer dizer que a superprodutiva mina de Casa das Pedras foi também internacionalizada.
A questão é: onde está o controle estratégico desse setor? Quem decide hoje e quem vai decidir amanhã o futuro deste cluster de excelência e de empregos? Quem decide o que se vai investir e onde, o que se vai produzir e para quem vamos vender?
O mercado mundial de aço está saturado, e os Estados Unidos, principal mercado externo para os produtos siderúrgicos brasileiros, impõem cada vez mais restrições. E estas não se limitam a produtos. Recentemente, o Eximbank negou crédito para venda de equipamentos siderúrgicos à Turquia, porque a siderurgia turca poderia concorrer no futuro com a americana. Por outro lado, o mercado brasileiro está crescendo para alguns produtos, como no setor de construção, e diminuindo para outros, como na indústria automobilística.
A siderurgia mineira, com excelentes índices de qualidade e produtividade, mantém-se muito mineira graças às pessoas que a dirigem. Trata-se de uma geração de siderurgistas criados nas empresas e de excelente qualidade humana e profissional. É neles que repousa o sucesso e a mineiridade do setor. Mas é uma geração que já está criando sucessores, ao mesmo tempo em que a estrutura de capital mudou. Mudou no Brasil e no exterior. O grupo Gerdau, que vem de um Estado que produz só 2,4% do aço brasileiro, controla hoje uma ponderável parte da produção siderúrgica nacional e tem presença forte no exterior. Tem usinas no Canadá e nos Estados Unidos e é um dos poucos grupos internacionais brasileiros.
Os empresários mineiros da área de ferro-gusa estão acompanhando atentamente a expansão do complexo de Carajás. É lá que estão os principais investimentos do setor. Os grupos empresariais siderúrgicos com controle de capital em Minas são poucos. Os principais são os dois pertencentes a funcionários da Açominas e da Usiminas. Não construímos um grupo como o Gerdau, orgulho gaúcho. Portanto, os movimentos estratégicos da siderurgia de Minas não estão em mãos mineiras. Conseqüentemente, pode-se dizer que Minas não determina sua sorte nesse setor.
Podem ser feitos novos investimentos, mas a complexidade de interesses transcende nossa boa vontade e competência. A indústria mineira produz e exporta o que melhor convém aos acionistas, onde eles estiverem, e ninguém vai dizer a eles com clareza o que também é de interesse do Estado de Minas, como entidade social e econômica. Se Minas não produziu grupos empresariais fortes e não criou melhor síntese de interesses locais, nacionais e internacionais, deve cuidar bem de seu futuro. Caso contrário, muda de perfil, transformando-se de novo em Província Mineral das Gerais.

Gazeta Mercantil, 29/8/2002



 

 



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