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OPINIÃO

Artigo

  • Um mês de novidades

A data de posse do presidente da República e dos governadores, no dia 1º de janeiro, foi absolutamente providencial e sábia. Durante janeiro, mês cheio de contas municipais e estaduais, sempre maiores, há ressaca de dezembro, boas vendas do comércio no final do ano e pouca atenção para o que está acontecendo no país, quase todo em férias. E, para a desatenção maior ainda, há boa chance de guerra no Iraque, as confusões na Venezuela e as chuvas. Mas, mesmo assim, passou-se um doze avos do ano e as contas do resto do ano continuam vindo.
O fato mais marcante do governo Lula para os empresários foi o aumento do juro. Pequeno ou não, houve aumento, como também subiram os combustíveis, mostrando o governo, claramente, a tendência de segurar a economia segurando inflação. Em resumo: a política prudente de pé no freio do governo anterior está se repetindo neste governo. Portanto, menos consumo, dinheiro mais caro, capital escasso e contas dos bancos mais gordas. O filme, já vimos e estamos vendo de novo.
A continuidade da política econômica do governo FHC, após a fase de transição, não é exatamente uma surpresa. O Partido dos Trabalhadores, que veio com discurso de mudanças, mostrou claramente que a mudança será exatamente essa: prudência na gestão da economia. Crescimento se houve, será quando puder. O empresariado reagiu bem ao governo Lula. Não houve cancelamento de novos investimentos, foram requentados alguns que já estavam na prateleira há meses, pois os investidores queriam acertar os incentivos com os novos donos da caneta e garantir assim melhor retorno para o capital investido. Esse foi o caso dos anúncios de investimentos em Minas Gerais. Se continuarem assim, com a preocupação fundamental de manter a inflação baixa, não haverá motivos para maiores preocupações com o crescimento da economia.
A dança de dólar traz incerteza na gestão de negócios. É impressionante. De um lado ouvimos o tempo todo que somos uma economia muito independente, autônoma até. De outro lado, qualquer sopro no câmbio gera impressionante aumento de preços internos. Se a isso adicionarmos certos erros na agricultura, como falta de milho, que passará a ser importado neste ano, as incertezas só aumentam. E o câmbio continuará frágil e volátil. Em primeiro lugar porque as nossas contas ainda não estão acertadas e os superávits do ano passado devem ser revistos com lápis na mão. E em segundo lugar porque o dólar está se fragilizando em relação ao Euro, o que também trará conseqüências para a nossa economia.
Enquanto está se falando muito aqui e lá em programas de erradicação da fome no Brasil, é impressionante o movimento da solidariedade que se produziu nas últimas chuvas. Muita solidariedade e pouca responsabilidade. E põe muito de cada lado para se ter o retrato real do Brasil. Apesar de o Governo Lula demonstrar marcha firme, não se pode desprezar que na área social está se falando muito, ao mesmo tempo em que são mostradas poucas diretrizes concretas, muito menos sinalizando a continuidade de programas sociais, como o Projeto Alvorada e outros bem-sucedidos. Mudar para melhor é bom, mas desprezar as experiências bem-sucedidas do passado é uma garantia de futuro incerto.
A fórmula de se preocupar muito com assuntos externos para desviar a atenção interna é antiga. Todos estados preocupados com os rumos da Venezuela. Em especial os Estados Unidos, nosso mais importante parceiro econômico e político. Mas também temos outras preocupações que nos afetam, como a consolidação do Mercosul, no nosso dia-a-dia. Ou até a provável guerra no Iraque. Mas receber Hugo Chávez três vezes em menos de um mês e tentar salvar as aparências de sua desastrada gestão, é coisa difícil de entender para um empresário brasileiro que, em janeiro, só teve que pagar mais impostos e não viu a luz da reforma tributária, apenas uma discussão inadequada sobre a reforma previdenciária como um clarão tênue no túnel.

Diário do Comércio, 29/1/2003

 

 

 




 

 



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