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Os dados estatísticos da economia mineira,
nos primeiros meses deste ano são assustadores. Manchetes
de jornais, acompanhadas de análises, apontam queda na produção
industrial, crise de venda nas pequenas empresas, aumento do desemprego,
da inadimplência individual e empresarial, e a saída
do Estado ou fechamento de várias empresas.
Fecharam a Teka, no Sul de Minas; a Gessy Lever, em Vespasiano;
e a Cedro e Cachoeira, em Caetanópolis, mudando para Pirapora.
A Telemar mudou todo o centro de decisões para o Rio de Janeiro,
e a Holdercim, para São Paulo. A Fiat Automóveis continua
com agência de publicidade em São Paulo, e a Construtora
Andrade Gutierrez, que mudou a sede para São Paulo, deixou
em Belo Horizonte só a história.
É verdade que melhoraram as exportações –
pelo menos enquanto o preço do café estiver um pouco
melhor e o do aço não cair. Por outro lado, os estragos
provocados pelas chuvas e geadas, junto com o desastre ecológico
de Cataguases (que só não era previsto por políticos
e empresários de lá), parecem indicar que há
algo quase sinistro acontecendo. Se nesta altura não houvesse
o futebol para amenizar, ficaria difícil conviver com fatos
do nosso cotidiano, como as revoltas nas penitenciárias e
os assassinatos, quase em massa, que estão acontecendo na
Grande Belo Horizonte.
Voltando à economia mineira, ela está balançando
como gangorra. Sobe e desce, mas não gera empregos suficientes,
e de qualidade, para a população. Esgotou-se o modelo
de eficiência e produtividade com commodities que predominava
na economia regional. Até o automóvel, que tinha valor
agregado quando a Fiat se instalou em Minas, hoje é simplesmente
um produto que se vende a quilo. Pelo menos o eu é feito
aqui.
Minas só tem produtos cujos preços às vezes
oscilam para cima, mas historicamente estarão sempre mais
baixos na próxima década. Esses produtos têm
demanda determinada e limitada, não elástica. Portanto,
não são geradores de novos empregos, apesar dos grandes
investimentos realizados.
A estrutura da nossa produção industrial e agrícola
é um dos pontos de estrangulamento. Outro é a base
do nosso capitalismo. A maioria das empresas que pesam no Produto
Interno Bruto de Minas não tem comando no Estado. A voz,
o voto e o veto estão fora dos nossos limites. As empresas
privadas pertencem a fundos de investimento e de pensão,
cujos interesses nada têm a ver com os interesses do Estado.
As estrangeiras também têm comando fora de Minas. Nesta
categoria se incluem as empresas cuja matriz, como é o caso
exemplar da Fiat, passa por reestruturações que não
permitem novos investimentos na filial mineira. E há ainda
empresas mineiras que preferem investir fora do Estado, por diversas
razões, entre as quais se inclui a política fiscalista,
sempre contrária aos empresários e às empresas.
Não se pode também esquecer que o sistema financeiro,
que possui três bancos locais eficientes e lucrativos, é
majoritariamente representado por interesses alheios a Minas Gerais.
Há exemplos de capitalismo local forte e progressista, como
no Triângulo, mas não suficiente para mudar a economia.
Ao mesmo tempo, esses exemplos mostram que Minas é viável.
A tendência de crise pode ser revertida com a adoção
de um novo modelo econômico, cujas bases existem e foram muito
bem identificadas em estudos do Projeto Cresce Minas, assim como
do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais. O Modelo de Arranjos
Produtivos Locais, ou clusters, é muito bem desenvolvido
no Estado e é a base para um sucesso quase certo da economia
mineira.
A reversão de expectativas, em especial do empresariado local,
passa por liderança política forte, para melhorar
e eficiência do Estado, mas passa também por lideranças
empresariais, que têm que comandar a reestruturação
econômica, condição indispensável para
a reestruturação social.
Minas Solidária é um belo exemplo, repetido tantas
vezes na história do Estado, de que juntos podemos fazer
algo diferente e novo. Se a economia mineira continuar carente de
inovação, ousadia e coragem para mudar suas bases,
não passará de cachorro que corre atrás do
próprio rabo. Precisam ser feitas alianças, não
de subordinação a interesses políticos menores
ou empresariais pessoais, mas que levem urgentemente à reestruturação
econômica.
Alguns já estão aceitando que o PIB mineiro caiu no
ranking nacional para o terceiro lugar. E a saúde, a educação,
a qualidade de vida? Onde estão? Quem aceita que Minas está
em terceiro lugar já aceitou que pode estar também
em quinto. E aí é melhor procurar emprego de novo
em São Paulo. Ou então repensar e analisar de verdade
o que está acontecendo, arregaçar as mangas e mostrar
a verdadeira cara de Minas: a de reagir e de ser melhor.
Este é o papel dos políticos e das lideranças
empresariais. Eles foram escolhidos para conduzir esse processo
de renovação, e não para nos levar ao quinto
lugar e ainda achar ruim quando a sociedade se revolta contra isso.
Diário do Comércio, 5/6/2003
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