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Alguns europeus podem, inicialmente, ter achado
certa graça por isso acontecer justamente na França,
arrogante e altiva – agora, está cada um preocupado
consigo mesmo! De fato, não há pais europeu que,
no quesito imigração, não seja também
uma França. A pobreza dos imigrantes, o crescimento da população
islâmica e o potencial de explosão são os mesmos;
desde a rica Eslovênia, que, após a independência
e a guerra na Bósnia, viu crescer uma população
islâmica que exige mesquitas numa cidade de 300 mil habitantes,
católica até a medula, até uma Alemanha, onde
600 mil eleitores turcos decidem eleições. O Velho
Continente teve, nas últimas décadas, uma mobilidade
populacional que não foi acompanhada pela mobilidade social.
A exploração da mão-de-obra dos imigrantes,
necessária ao modelo econômico e social, não é nova.
Nova é a condição de vida subumana de milhares
de imigrantes, legais e ilegais, que não tiveram acesso à qualificação
profissional, com baixa empregabilidade numa economia que precisa
de mãode-obra ultraqualificada para ser competitiva. Essa
qualificação não vem dos países sem
escola da África, da América Latina ou do Magreb,
vem do Leste Europeu! Há uma nova realidade na Europa, uma
nova sociedade que ainda não achou seu modelo. Membros da
segunda e terceira gerações de imigrantes, que se
integraram com muito sucesso ao mundo oficial e dos negócios,
são considerados imigrantes. Os acontecimentos franceses
estão exigindo uma reflexão profunda sobre a viabilidade
da Europa como sociedade baseada na miscigenação
das raças e na convivência das crenças. Todos
os países do continente têm problemas urgentes a resolver
e a União Européia não mostra vontade, força
política ou liderança para abordálos. O problema
nº 1 da Europa, neste século, tem sido o último
na agenda dos burocratas e políticos de Bruxelas. O consenso
entre responsáveis é que os modelos econômicos
e de relações econômicas internacionais também
devem ser repensados. O perdão da dívida dos países
mais pobres é um bom começo. Obter maior eficácia
no governo dos países pobres é também indispensável
para a solução do problema. O problema francês é continental, é maior
que Villepin e Sarkozy – mais preocupados em prejudicar um
ao outro do que em achar soluções. Faz crescer um
outro perigo: políticas ultranacionalistas e grupos de direita,
como Le Pen na França e Haider, na Áustria.
Assim, continuamos diante de um problema que tudo mundo vê e
ninguém quer enxergar, de extensões maiores do que
se imaginava na política tradicional. O assunto merece ser
refletido em relação ao Brasil. Temos, de um lado,
a integração dos imigrantes, que, sem deixar suas
raízes, se tornaram brasileiros. (Não há brasileiro
de segunda classe, como disse um jovem francês de origem
africana para os franceses não-brancos nascidos na Franca).
De outro, a imigração que criou uma sociedade mais
forte, mais progressista, pode-se dizer até mais brasileira,
não resolveu diferenças sociais cada vez mais acentuadas,
inclusive pelo continuado fracasso das políticas governamentais,
que suportamos há décadas.
Certamente, devemos refletir, com base nos acontecimentos franceses,
sobre a sociedade que temos no Brasil. Não só por
medo das rupturas que, aliás, acontecem de vez em quando,
mas pela responsabilidade que temos com os segmentos mais pobres
da sociedade. Talvez seja justo dizer que já passamos da
conta, que os que enriqueceram não podem continuar ignorando
o que se passa no resto da sociedade. Passou da hora exigir dos
governos fazerem do desenvolvimento social a prioridade econômica.
Passou a hora de só falar. A França é aqui!
OPINIÃO ESTADO DE MINAS / SEGUNDA-FEIRA , 14 DE NOVEMBRO
DE 2005
9
MAURÍCIO PESSOA
Jornalista
EDUARDO BERNIS
Presidente da Associação Comercial de Minas
STEFAN SALEJ
Ex-presidente da Federação das Indústrias
de Minas Gerais,
professor visitante do curso de doutorado IPS Jozef Stefan, Ljubljana
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