- O empresariado, o Estado e os Trabalhadores: Desafios Atuais
Seminário: Empresa, Empresários
e Sociedade
Mesa redonda
O empresariado, o Estado e os Trabalhadores: Desafios Atuais
Juiz de Fora, 26.de novembro 2004.
Contribuição de
Stefan Bogdan Salej
A aliança eleitoral entre os empresários brasileiros
e o PT na ultima eleição presidencial tem o seu preço
claramente estabelecido. O objetivo dos empresários foi
claro: manutenção de políticas que permitem
a melhoria da rentabilidade do capital em troca da estabilidade
política do governo do PT.
A partir dessa premissa esta funcionando um sistema de equilíbrio
ajustável: para cada conquista social ou política
do governo do PT na linha ideológica histórica, cria-se
um contrapeso na política econômica. Isso está claro
tanto nas políticas chamadas gerais ou até nacionais,
como nas políticas setoriais, como no setor agrícola
por exemplo. Os avanços do MST são contrabalançados
com o sucesso das exportações de produtos agrícolas,
equilíbrio nas leis de biosegurança, garantia de
preços e créditos baratos. A mesma coisa acontece
nos setores financeiro e industrial. Até a composição
do ministério de Lula reflete esta blindagem, já que
nele está um maior o número de representantes empresariais
do que em qualquer ministério brasileiro até hoje,
inclusive os da época de regime militar, que era fortemente
apoiado pelo empresariado brasileiro.
Enquanto as regras de convivência com o empresariado estão
mais claras ou visíveis, não estão claras
as evidências de convívio com os sindicatos dos trabalhadores.
A distribuição de cargos e agrados aos lideres dos
trabalhadores funcionou até certo ponto. Esses líderes,
ao contrário dos líderes empresariais, sabem que
a sensibilidade de sua base à política de arrocho
salarial ainda é maior do que aparenta ser. As empresas
crescendo com seus lucros melhores do que em qualquer período
anterior, não podem manter sua competitividade só nos
salários menores do que os chineses e no permanente endividamento
dos assalariados. A poupança brasileira é composta
essencialmente de superávit fiscal e não de poupança
da população. E aí se coloca a grande questão
do futuro do movimento sindical brasileiro: ele chegou através
do PT ao governo, mas para permanecer no governo tem que fazer
alianças que diminuem seu espaço de novas conquistas
fora do contexto de política maior, ou seja quase a política
do estado. A sua combatividade e as exigências de bases ainda
são controladas, mas não há duvida de que
surgirão com o tempo novas lideranças, comprometidas
com outra visão de poder. E aí podem começar
conflitos mais acirrados entre trabalhadores e empresários.
Interessante é a iniciativa de estabelecer um conselho
de desenvolvimento econômico e social e lhe dar status ministerial.
Não há dúvida alguma de que os debates são
de melhor qualidade e de que o governo está até aproveitando
algumas das sugestões de parte a parte. Mas também
não há duvida de que esse conselho representa um
enjaulamento de idéias e discussões entre os dois
atores sociais: sindicalistas e empresários. O verdadeiro
poder de decisão está fora desse conselho.
A pauta de relações entre os atores políticos
do atual cenário brasileiro não pode ignorar uma
reforma do sistema sindical. O atual sistema significa para os
empresários um poder financeiro enorme (algumas estimativas
falam em mais de 4 bilhões de dólares anuais em contribuições
dos trabalhadores para as entidades assistenciais empresariais-
sistema 5 S e outros) aliado a exercício de política
partidária, o que aumenta o poder de barganha dos chamados
líderes empresariais. Estes transitam da direita para esquerda
sem nenhum problema ideológico, mas com toda a força
fisiológica.
Assim a reforma sindical pode ser feita dependendo dos interesses
dessas lideranças, dentro de um sistema de barganha que
não os deixa enfraquecidos politicamente e nem financeiramente.
Mais importante do que a reforma trabalhista, que só pode
ser feita no contexto das demais reformas estruturais (como política,
fiscal, educacional etc.) é a manutenção da
atual política monetária, mesmo com juros altos,
mas com salários baixos. São os salários baixos,
aliados ao controle social, que permitem a competitividade da indústria
brasileira com acesso a tecnologias mais avançadas de produção
.
Os empresários brasileiros reunidos em milhares de entidades
não têm um projeto comum de desenvolvimento do país.
De vez em quando se reúnem em torno da idéia de reduzir
os custos fiscais, promovem movimentos sociais corporativos que
têm mais marketing do que a firme convicção
de que o desenvolvimento social é a base do desenvolvimento
econômico. Faltam lideranças comprometidas com o país
e não com o seu próprio projeto político.
E dentro dessas fragilidades institucionais, os governos barganham
com muita facilidade e no final das contas o governo tem com o
atual sistema fiscal um enorme poder sobre as empresas e empresários,
inclusive sobre os informais, que representam um coeficiente eleitoral
importante. Um verdadeiro lumpen empresariat que depende de políticas
sociais do governo e não de sua eficácia empresarial
para sobreviver e crescer.
A face internacional tanto do empresariado brasileiro como dos
sindicalistas não pode ser ignorada. Em um país que
tem 65 % da produção industrial controlada por empresas
estrangeiras, que tem mais de um terço do seu sistema bancário
sob controle estrangeiro e 75 % das exportações representam
commodities cujos preços são controlados pelos mercados
internacionais , não se pode falar em independência
de políticas. O governo e o estado têm que se fortalecer
no controle do capital porque ele não conhece limites e
esperar que se auto-regulamente a favor do país democrático
e socialmente desenvolvido é uma ilusão que ninguém
pode ter. Espera-se que nesse contexto os quadros do PT, politicamente
bem preparados e ideologicamente divergentes porém unidos,
estejam em condições de promover o diálogo
entre diversos e divergentes interesses, empresarias e dos trabalhadores,
fortalecendo o papel regulador e mediador de um estado socialmente
mais avançado e justo e economicamente forte.
Temos que rever o modelo existente, que durante séculos
nos convenceu de que desenvolveu o país, mas que fortaleceu
as elites políticas e empresariais inclusive do ponto de
vista financeiro e deixou a população marginalizada
em todos os sentidos. Temos que alcançar um modelo onde
a população historicamente marginalizada não
represente uma ameaça à paz social, mas essencialmente
um potencial de crescimento econômico de que o país
precisa para crescer em todos os sentidos. É esse o desafio
maior dos empresários, dos trabalhadores e do atual governo.
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