A RESPONSABILIDADE SOCIAL DO EMPRESARIADO
O CASO DO BRASIL
DIÁLOGO ALEMANHA-BRASIL
STUTTGART, 22/06/2004
Stefan Bogdan SALEJ
APRESENTAÇÃO
1.A situação social no Brasil
2.Papel social do empresariado e respectivas ações
3.Ações multilaterais como a do Global Impact
no Brasil
4.Perspectivas e conclusões
1. A situação social no Brasil
O Brasil pode se gabar de grandes resultados em sua industrialização,
de magníficos ganhos na produtividade agrícola,
de sua extensão territorial, de seus feitos esportivos
e de sua excelência na música, para mencionar
apenas alguns pontos. Mas há uma mancha negra na vida
brasileira que se arrasta por séculos e que não
se dilui. Essa mancha é a situação social
do país.
Não há nenhum setor no Brasil “campeão mundial” (expressão
comum no país para expressar ufanismos) em solucionar problemas sociais.
Há uma crescente consciência dos problemas, aliada a uma também
crescente retórica política, mas os problemas continuam os mesmos,
estão crescendo, e as soluções estão cada vez mais
distantes. O Brasil é, gostemos ou não, um país injusto
e desigual, e sem soluções à vista que nos convençam
de que haverá mudanças concretas nessa situação,
há muito tempo crítica e insustentável.
Não quero entrar no mérito das estatísticas, amplamente
divulgadas pelo governo brasileiro e pelas Nações Unidas. Elas
são cruéis, porque estamos tratando de pessoas, e não
de números, mas temos que reconhecer pelo menos um fato positivo no
cenário de irresponsabilidade social predominante no Brasil: há uma
clara consciência da sociedade brasileira, em todos os seus segmentos,
de que é preciso construir uma mudança segura e cooperativa que
garanta o desenvolvimento econômico, político e social.
Não haverá no Brasil uma sociedade democrática, uma sociedade
economicamente estável, propícia ao desenvolvimento, se não
houver uma clara definição de prioridade social e o necessário
investimento nesse campo. Hoje é o setor social que determina o grau
de desenvolvimento da democracia brasileira e sua estabilidade, como também é o
desenvolvimento social que determina o crescimento do mercado interno e sua
capacidade de competição. A situação social brasileira
acarreta um subdesenvolvimento político, uma incapacidade de competir
em nível mundial, com ganhos de produtividade, e uma permanente instabilidade
política.
As ações sociais programadas pelo governo, especificamente pelo
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, são
um passo importante. Mas é necessário um melhor aproveitamento
de recursos, menos corrupção, ações mais coordenadas,
e não apenas com outros ministérios ou organismos federais e
estaduais de ação similar.
2. O papel social do empresariado e as respectivas ações
A tradição católica predomina, com seus
valores, no meio dos empresários brasileiros e foi a
base da ação social das empresas até a
década de 90 do século passado. Essa ação
tinha como linha mestra o assistencialismo e certa dose de
paternalismo, mas estava longe das diretrizes das encíclicas
papais, como a Rerum Novarum. Por outro lado, não se
pode esquecer que foi o Estado Novo, por iniciativa dos empresários,
que instituiu os serviços sociais da indústria
e do comércio. Mais tarde foram fundados serviços
sociais em outros segmentos econômicos. Esses serviços,
em conjunto, até hoje representam um pilar importante
nas áreas educacional e social, apesar de às
vezes serem ineficientes do ponto de vista de custo/benefício.
Na década de 90 começaram a ganhar mais força os movimentos
políticos e sociais do empresariado, como a Campanha contra a Fome,
do PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais), e maior preocupação
com o meio ambiente, após a Conferência do Rio em 1992. Foram
muito importantes, historicamente, a mobilização dos líderes
empresariais pela erradicação do trabalho infantil em 1994, o
estabelecimento do Balanço Social como modelo de atuação
em 1997, a fundação do Instituto Ethos de Responsabilidade Social
Empresarial em 1998, e daí por diante, fortalecendo um movimento empresarial
de responsabilidade social de fundamental importância para o Brasil.
Também vale a pena mencionar, nesse contexto, as ações
do Instituto Ayrton Senna.
Em resumo, houve, junto com o advento do governo Fernando Henrique Cardoso,
um despertar da comunidade empresarial para a necessidade de uma ação
social corporativa no Brasil. Uma consciência de que os empresários,
tanto individualmente, em suas empresas, como em suas entidades de classe,
têm que assumir essa responsabilidade. De um lado, a sociedade reclama
deles um papel mais ativo. De outro, diante de uma estrutura política
como a brasileira, os empresários são os atores políticos
de cujas ações depende o desenvolvimento da sociedade.
Esse movimento produziu resultados animadores, inovadores, e uma consciência
de que responsabilidade social corporativa ou empresarial pode produzir bons
resultados para a sociedade. Pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas, do Ministério do Planejamento, coordenada pela professora
Anna Maria Peliano, mostra que em 1999 aproximadamente 70% das empresas brasileiras
mantinham algum tipo de ação social e que, em média, 0,2%
do Produto Interno Bruto do país era investido em ações
sociais de origem empresarial. É interessante observar que, naquele
período, as ações se concentraram em assistência
social, sobrepondo-se a outras áreas, como as de alimentação
e educação. O motivo mencionado na pesquisa como principal fator
de ação empresarial social era o humanitário.
É importante mencionar também a introdução do balanço
social, tanto nas empresas como nos setores empresariais. Ou seja: transparência
nas ações e accountability de movimento. As empresas não
se preocupam só com seus resultados econômico-financeiros, mas com
seus resultados sociais. A ação social passou a fazer parte das
estratégias empresariais, dos investimentos e dos custos. Passou a fazer
parte também da percepção dos clientes e investidores, que
definitivamente entendem que empresas com ação social responsável
têm mais futuro e são mais sólidas, obtêm melhores
produtos e rendem mais também do ponto de vista financeiro.
Isso não quer dizer que não existem empresários que acham
que a produção de bons resultados financeiros é o suficiente
para cumprir seus compromissos sociais. Mas a consciência empresarial
social está muito divulgada entre as empresas brasileiras e estrangeiras,
principalmente as de grande porte no Brasil. Para as empresas estrangeiras,
a atuação nessa área ocorre mais em função
de diretrizes estratégicas de suas matrizes ou de pressão dos
atores sociais, como sindicatos, ou até do governo. Há ainda
muita dualidade de ações sociais e responsabilidade social entre
as empresas estrangeiras no Brasil e suas matrizes. Com certo grau de certeza,
pode-se dizer que o empresário atua socialmente no Brasil motivado por
valores éticos, mas as empresas atuam muito mais por pressão
social ou política.
Vale a pena voltar à ação social institucionalizada, particularmente à das
organizações denominadas 5 S – Sesi, Senai, Senac, Sesc
e Sebrae –, às quais se juntaram outras similares, como as dos
setores de transportes, de cooperativas e da agricultura, como o Senar. A situação
social em torno das empresas seria muito pior se essas organizações
não existissem. Elas recebem hoje recursos de forma compulsória,
como impostos, e esses recursos somam mais de 3 bilhões de euros por
ano.
O que se coloca em discussão é o custo-beneficio das ações
dessas organizações, a compatibilização de seu
foco com o das ações sociais das empresas e melhor integração
com outros atores sociais, especialmente uma eventual parceria com os sindicatos
dos trabalhadores. Nesse campo há muito a fazer e refazer, inclusive
com referência às relações de trabalho.
No capítulo do meio ambiente, vale salientar as mudanças que
se produziram nos últimos anos em relação às empresas
e sua postura quanto ao assunto. As conferências do Rio e de Johanesburgo
foram decisivas nesse sentido, destacando-se também a maior participação
dos empresários na conferência da África do Sul. A Confederação
Nacional da Indústria elaborou um código de ética quanto à sua
postura em relação ao meio ambiente, criou prêmios para
melhores empresas e seu desempenho na área do meio ambiente e estabeleceu
o sistema de centros de tecnologia limpa, paralelamente à formação
de especialistas em ISO 14000 no Senai, coordenada posteriormente por outra
iniciativa empresarial de primeira ordem, que é o Centro Brasileiro
de Desenvolvimento Sustentável.
O debate sobre a Agenda 21, que não avançou em suas ações
tanto quanto precisaria, foi amplo entre os empresários e a sociedade
civil, assim como as discussões sobre o uso das águas e o estabelecimento
dos comitês de bacias hidrográficas. Os programas de reciclagem,
em especial de alumínio e de ferro, são exemplares para o mundo.
A agenda do meio ambiente não está bem resolvida no que diz respeito
ao uso das florestas e de seus recursos naturais, especialmente quanto à sustentabilidade
da Amazônia; ao papel regulador do Estado, em suas diversas formas e
políticas regionais (o Estado brasileiro sempre quer punir, em vez de
incentivar programas de desenvolvimento); à biodiversidade, particularmente
quanto aos produtos geneticamente modificados. As discussões, os radicalismos
e a falta de iniciativas levam ao descumprimento das leis, de parte a parte,
o que dificulta a construção da paz social desejada.
O tema do meio ambiente, aliás, é um dos mais polêmicos
nas agendas multilaterais. Protocolos como os de Kyoto, de Montreal e de Basiléia
só vão funcionar, e trazer benefícios para todos, se todos
os envolvidos se submeterem a suas regras e exigências. A sociedade mundial
está lenta em sua aplicação; conseqüentemente, as
empresas também estão lentas. Uma questão que se reproduz,
neste capítulo, é a dos padrões que as empresas aplicam
de forma diferente em seu país de origem e no Brasil. Destaquem-se aí as
exigências ambientais como barreiras ao comércio.
3. Ações multilaterais como do Global Compact no Brasil
O Projeto Global Compact foi muito bem recebido no Brasil.
Desde seu lançamento, em Belo Horizonte, alguns anos
atrás, até a participação nos programas
de aprendizado de melhores práticas, as empresas brasileiras
são as que mais participam, segundo o Instituto Ethos.
Seus nove princípios estão, de certa forma, incorporados à vida
empresarial brasileira. Mas o Global Compact não pode
ser reduzido a seminários, mesmo aos International Learning
Foruns, devendo atingir uma massa maior de empresários,
em especial os pequenos e médios.
Aliás, o problema maior de responsabilidade social no Brasil é a
economia informal, que já atinge 50% do Produto Interno Bruto do país.
Os “empresários” desse setor, se podemos chamá-los
assim, estão à margem da economia organizada, são eficientes
no desrespeito à legalidade, porque esta não os estimula a serem
empresários formais (por excesso de burocracia, altos impostos, corrupção,
etc). Esse lúmpen empresarial pode fazer parte tanto da solução
quanto de um problema social.
As experiências internacionais e o engajamento em projetos comuns à sociedade
mundial podem ser estimulantes para o empresariado brasileiro. Talvez nenhum
outro segmento social brasileiro esteja tão internacionalizado como
o empresarial. Daí a necessidade e a oportunidade de se aproveitarem
as experiências internacionais, como este diálogo Brasil-Alemanha,
ou Alemanha-Brasil. Nesse contexto, agências como a GZT e a Fundação
Konrad Adenauer têm papel fundamental para abrir, como dizem alguns,
as mentes além do mercado e dos clientes das empresas.
Na área multilateral, devemos questionar as políticas sociais
das agências multilaterias de crédito e do Fundo Monetário
Internacional. De um lado, estão cheios de programas assistenciais,
mas de outro lado engessam as políticas econômicas, que poderiam
criar mais empregos e melhorar a distribuição da renda. O discurso
dessas instituições não tem diminuído a pobreza
no Brasil; ao contrário, tem garantido a sobrevivência de um modelo
de permanente crise social.
Nesse contexto, cabe perguntar se devemos participar mais do Copenhagen Consensus.
E, dentro desse item, fica a questão da Aids, que é muito pouco
tratada pelo empresariado no Brasil. É como se não nos atingisse,
assim como a emigração, a prostituição infantil
(questão na qual o governo, por meio do Ministério do Turismo,
está tomando providências enérgicas), a corrupção
e suas práticas através das fronteiras, inclusive com novos investidores, ávidos
de ganhos fáceis em um país frágil institucionalmente
e legalmente.
4. Perspectivas e conclusões
Numa sociedade de castas como a nossa, expressão freqüentemente
usada pelo eminente professor Fábio Wanderley Reis,
temos que perguntar com clareza: afinal, que casta empresarial
será responsável pela aplicação
dos nove princípios do Global Compact (relativos a direitos
humanos, relações trabalhistas, meio ambiente).
A elite empresarial brasileira avançou muito rumo a
uma sociedade corporativa responsável, mas esse avanço
ainda não é suficiente para mudar de fato e significativamente
o negro retrato social do Brasil. Os problemas são enormes
e variam desde a distribuição de renda até as
dimensões geográficas do país, e a ação
social dos governos e políticos contradiz a ação
empresarial.
O modelo social brasileiro não tem foco, não tem consenso na
sociedade, tem muito marketing político (faz-se muita publicidade por
pouca coisa) e se baseia em clientelismo político e assistência
social, e não no desenvolvimento social. O modelo tem que ser repensado – aliás, é o
que se esperava do novo governo – e tem que ser consensual na sociedade.
O termo “social” no Brasil é pejorativo, e os políticos,
com poucas exceções, o transformaram em palavrão, sem
o sentido de confiança que as ações sociais devem ter.
Não há como conseguir os resultados nesta área se não
há foco e conceito claro sobre o que queremos. E o foco tem que ser
na educação, porque só ela é capaz de promover
mudanças na sociedade de forma eficaz e duradoura. Os empresários
já declararam isso, mas não têm vontade política
nem capacidade de diálogo para conseguir consenso com os governos.
Será lamentável se a sociedade brasileira conseguir melhoras
sociais somente em função de pressão insustentável,
gerando conflitos políticos radicais, ao invés de criar uma democracia
e um desenvolvimento sustentável, na base do diálogo e da responsabilidade
de suas próprias gerações e elites, e não de castas.
Exemplos no mundo dos que conseguiram fazer isso não faltam.
Stefan Bogdan Salej
Bibliografia
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10. Rinaldo Campos, Empresariado e Ética, Ed. Atlas,
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13. Responsabildiade social das empresas, Ed. Petrópolis,
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14. Francisco Neto e César Froes, Responsabildiade social
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16. www.copennhagenconsensus.com