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OPINIÃO

Artigo

  • Um pacto para duplicar o PIB

    Para que o Brasil avance mais rapidamente rumo ao desenvolvimento econômico e social, é preciso começar a discutir rapidamente um grande acordo nacional. Um acordo que tenha como premissa a realização de reformas estruturais, principalmente no ensino, com a criação de um sistema educacional avançado. Um acordo que tenha como principal objetivo fazer com que o PIB dobre nos próximos dez anos – de R$ 1,2 trilhão, hoje, terá de chegar a mais de R$ 2 trilhões, até o fim desta década.
    Para que isso se torne realidade, as entidades de classe da indústria se colocam à disposição para participar não só do debate, mas de ações concretas que já estão sendo implantadas.
    Já há, por exemplo, mais de 250 “clusters” – ou seja, agrupamentos de empresas de uma mesma região que se dedicam a atividades similares. São mais de 10 mil empresas majoritariamente nacionais, competitivas, exportadoras, e de tecnologia própria, produzindo de frutas tropicais, em Petrolina (PE), biotecnologia, em Minas, e couro e calçados, no Rio Grande do Sul, a produtos de biodiversidade, no Amapá.
    É o empresário brasileiro lutando e, pasmem, conseguindo vencer. Essa é uma experiência a ser ampliada.
    Não custa lembrar também que foi com esse tipo de iniciativa, um grande acordo nacional, o Pacto de Moncloa, que a Espanha emergiu como uma das nações de maior desenvolvimento da década de 80, após quase 40 anos de ditadura. Uma nação cujas empresas se transformaram atualmente em grandes investidoras em terras brasileiras.
    Muitos desafios já foram colocados para o Brasil. Alguns deles considerados bem difíceis de alcançar até há bem pouco tempo. Só para lembrar aos pessimistas de plantão, o país convive, bem ou mal, com a estabilidade democrática há quase 20 anos. Mesmo o dragão da inflação, que corroia a renda da população e impedia qualquer planejamento empresarial, tem sido mantido sob controle há pelo menos oito anos.
    E, apesar do sobressalto dos importadores, a taxa de câmbio tem favorecido em demasia as empresas que nacionalizaram a produção e que, agora, colhem grandes frutos com a exportação. Queiram ou não, o Brasil é um mercado de 170 milhões de habitantes, os quais precisam comer, se vestir e se locomover.
    Somos a oitava economia do mundo e estamos longe de conflitos raciais e religiosos. Essa estabilidade legal propicia o ambiente ideal para a definição de políticas macroeconômicas e de estratégias empresariais, que devem ser aliadas à ética nos negócios. O Brasil, todo mundo sabe, é um país com enormes diferenças regionais e sociais. Essas diferenças, em vez de desanimar, devem ser transformadas em oportunidades para o desenvolvimento descentralizado.
    Sem que muita gente se dê conta – o conflito internacional simplesmente tomou o noticiário –, algumas ações em curso poderão significar grandes saltos. A Lei de Inovação Tecnológica, por exemplo, em tramitação no Senado, vai permitir intercâmbio maior entre institutos de pesquisa, universidades públicas e empresas, que devem abrir suas portas para o financiamento e a produção científica genuinamente nacional. Para breve, o governo promete a lei que deve desonerar produtos destinados à exportação, criando, inclusive, uma nova classificação industrial para empresas com foco no mercado externo.
    Ainda no começo desta semana, notícia publicada nesta Folha dava conta de que as indústrias de bens de capital devem fechar o ano com crescimento de até 30%. E os carros-chefes desse crescimento vão ser as máquinas e os equipamentos para setores como petróleo, energia elétrica, construção e indústria. Ou seja: estão sendo feitos investimentos em setores que sustentam o desenvolvimento industrial.
    Há também uma outra medida em curso, que precisa ser vigiada para não sofrer desvios políticos e que pode ajudar a diminuir um pouco as desigualdades. Trata-se do Programa Bolsa-Escola, que, se for firmemente ampliado e implantado, significará um facho de luz na diminuição da exclusão social.
    Nesse sentido, o de investir na educação, estamos propondo que as entidades empresariais, como a CNI (Confederação Nacional da Indústria), patrocinem a criação de uma “universidade da indústria”. O Sistema S (Sesi, Sesc, Senai, Senac e Sebrae) já desenvolve, nos grandes centros urbanos, trabalhos de pesquisa que ajudam muito a indústria. Esse sistema de ensino precisa ser incentivado, modernizado e descentralizado, implantando-se equipamentos e estudos de última geração nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste.
    Esse grande acordo nacional – entre governo, partidos políticos e setores empresariais e de trabalhadores – teria como outra grande tarefa descobrir formas de melhorar a renda e a qualidade de vida da população. Ainda que seja difícil, é fundamental buscar um consenso em torno das reformas tributária, fiscal, previdenciária, do judiciário e da legislação trabalhista. O emaranhado burocrático da legislação emperra e dificulta a tomada de decisões e estimula os cartórios e a informalidade.
    Ao mesmo tempo em que se costura o acordo das reformas de base, determinados setores e indústrias devem ser identificados para que recebam tratamento especial na disputa de mercados internacionais. O desenvolvimento sustentado, com a criação de hidrovias (como a Araguaia-Tocantins), na região Norte, e a ampliação da agroindústria, no Centro-Oeste, e o potencial turístico, no Nordeste, é outro objetivo claro.
    Com a recente inauguração do aeroporto internacional de Belém (PA) e o fim das obras de ampliação do aeroporto de Recife, o Norte e o Nordeste terão condições de se transformar em pontos de escala de vôos que se destinam ou que saem de São Paulo e do Rio de Janeiro em direção a outras grandes cidades e capitais do mundo.
    Indústrias como a Gerdau, a Companhia Mineira de Metais, a Vale do Rio Doce, a Sadia e os Frigoríficos Bertin, por exemplo, já se firmaram como marcas de classe mundial. É preciso, no entanto, estimular outras empresas que lutam para se colocar como exemplos de capitalismo e de tecnologia de matriz nacional. Entre elas, destacam-se as empresas de biotecnologia PVP, do Piauí, e Biobrás, de Minas Gerais, e a fábrica de autopeças Durametal, do Ceará.
    Os recentes acontecimentos no cenário internacional estão mostrando que o aparelho de Estado pode e deve desempenhar um papel fundamental na condução do planejamento de médio e longo prazos e na definição de políticas econômicas e sociais. A questão das altas taxas de juros, por exemplo, é um nó que o governo precisa desatar ainda em 2001, para permitir, a empresas que querem investir, o acesso a créditos.
    A redução de alguns pontos percentuais dessa taxa poderia significar uma verdadeira vitamina para um competidor que corre, sim, mas ainda sem desenvolver todo o seu potencial.

    Folha de S. Paulo, 18/10/2001

 

 



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