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18/9/2003
Faz uma reflexão sobre o ocorreu na sua
vida.De repente estou navegando no tempo e espaço
da vida das pessoas, dos acontecimentos e saindo do
futuro para
passado e vice-versa. Assim me vejo nascendo no meio de uma guerra, com privilegio
de nascer num hospital, na cidade recém largada pelo
Italianos e recém conquistada pelos alemães.Mas
de fato só me lembro de minha vida a partir de uns três
anos.Pai mestre salsicheiro que passou maior parte da guerra
entre negócios e prisões e campos alemães,
mãe que era garçonete expulsa de Berlin nos idos
trinta de uma família de 14 irmãos cada um nascido
num castelo porque meu avo era engenheiro agrônomo que
administrava as grandes propriedades agrícolas geralmente
dominadas pelos castelos.O avo paterno era mineiro na Áustria,
deixou seis filhos e morreu de silicose.E ai eu berrando pelo
pão e carne desde pequenino, já que o vizinho
de baixo era padeiro.Assim vi nascer primeira aliança
estratégica que nos fez bem durante e após a
guerra-padeiro e salsicheiro.Pão e carne e uma
enorme clientela procurando os dois produtos.
Papai era bom de negócios.Vendia e comprava cavalos,
transportava pela cidade com cavalos) os carros eram escassos)
e tinha salsicharia com açougue.Tínhamos ate
cavalo de corrida.E depois por minha insistência ele
comprou um cavalo chamado Gidran ,preto,árabe, muito
bonito.Nos fomos a primeira corrida no hipódromo,eu
todo arrumado ate com cabelo penteado e ai esperando a primeira
vitória do meu Gidran.Veio a primeira derrota para uma égua
e a lição de que a certeza de vitória
pode se transformar em derrota.E ai não adianta chorar
e espernear, e eu era bom nisso, porque já foi derrotado.O
outro cavalo Sokol passou a ter todas as minhas atenções
ate o dia que meu pai me colocou num domingo de Páscoa
no limbo dele, Sokol se assustou e eu cai.Mas não cai
em qualquer lugar,cai acima d euma pedra que e usada na Eslovênia
para dividir as propriedades.Lá apreendi de novo que
a gente pode cair do cavalo e que tem uma pedra que divide
as terras.E mais que esta pedra e irremovível e
sagrada.
Nestas memórias ainda vai uma de furar o olho no arame
farpado,que me provocou o trauma de avental branco por causa
de médicos que me trataram e trataram bem para eu não
perder a vista.Em compensação tive ódio
de barbeiro que usava o mesmo avental branco e parece que isso
se arrasta ate hoje porque são raros os momentos que
ando de cabelo arrumado.Mas gostosas mesmo eram minhas visitas
ao açougue do meu pai.Senhora bom dia, como vai.Uma
delicadeza sem fim.A carne escassa envolta em bom humor e bom
preço, no jornal velho que reduzia o peso
da carne e aumentava a receita.E eu no caixa mexendo
com
dinheiro sem
saber de que se tratava exatamente, mas sabia que
por ai andava o mundo.
Nossa vizinhança era ótima, morávamos
em casa quase que na periferia da cidade e perto da casa tinha
um restaurante onde meu pai passava às vezes para visitar
o dono e amigo.E eu passava lá para beber kraherel,era
groselha com sifão, já que refrigerantes não
existiam, muito menos Coca Cola na socialista Iugoslávia.Gostava
muito do dono de restaurante.Ate que um dia minha mãe
disse que Lado,o dono, morreu.Morreu, como morreu.Foi esfaqueado
por um bosniaco.Apesar de muita trauma de guerra que ainda
existia por todo lado,mas ai eram os alemães que matavam,
não sabia que existiam bosniacos e matavam com faca
quando não tinha guerra.Foi encontro com a morte direta,chocante
e inevitável para o resto da vida.
Antes de mudarmos da casa, nasceu minha irmã.Eu queria
mesmo era irmão e queria que se chamasse Mihael, nome
do meu avo e meu tio que me adotou mais tarde e que eu gostava
muito.Mas nasceu irmã, bonitinha, fofinha, chamada Ana
que ganhou apelido de Nuska.Eu inabalável na defesa
de meu reino queria jogar ela pela janela.E ai para me cooptar
me deram a função de alimentar ela com mamadeira.Cumpri
a minha missão com perfeição:minha irmã emagrecia
e eu engordava.Ate que me pegaram em flagrante tomando a mamadeira
dela.Ai foi um deus nos acuda.Castigo de ajoelhar no milho
no canto e começar dividir as atenções
e o reino.Alias milho foi outra coisa que deu problema.Começaram
distribuir milho para fazer polenta e pão porque faltava
trigo.E eu não tive duvida.Falei para todo mundo que
não éramos galinhas para comer milho. E ai socialismo
começou bater na porta.Mamãe que cuidava de nos
exemplarmente foi chamada na policia para explicar minhas atitudes
ante socialistas.E imaginem a minha mãe tentando explicar
que tem um filho pequeno que tem uma língua grande e
que não precisa de incentivo para falar bobagem.Ate
hoje minha mãe não consegui explicar isso.
Papai foi perdendo negócios, fecharam as empresas,
a rigidez de novo regime não permitia empresários
e perdendo tudo virou operário numa fabrica de fivelas
para cintos.Virou metalúrgico.Chegava em casa preocupado,
apesar de que ainda tinha poupança, mas perdeu o rumo
de negócios, o que ele sabia fazer bem.Trabalhava em
algo que nada tinha que ver com ele.Conosco morava uma prima
dele, que estudava e trabalhava no serviço meteorológico.E
nos visitava outro primo do meu pai, que só vinha de
noite.Às vezes de noite o nossa cachorra, chamava se
Sera, latia e papai dizia que era Udba, policia política,
que estava vigiando a casa.De repente um dia meu pai nos abraçou,
chorou e pegou a bicicleta e foi embora.Mamãe não
dizia muito para onde ele foi, só que nos vamos nos
encontrar com ele.E de fato alguns meses depois, no ano de
1949,eu com cinco anos de idade e minha irmã com um
ano e pouco, pegamos o trem e fomos para uma cidade perto da
fronteira na Itália.Quando chegamos numa fazenda, a
dona dizia para irmos embora porque a Udba sabia que íamos
fugir da Iugoslávia.A prima que morava conosco foi de
trem ate a cidade, depois voltou.Ela arrumou um remédio
para minha irmã dormir e não chorar.Meia volta
volver e pegamos na cidade famosa por sua grutas, Postojna,
trem de volta.De repente ouvimos policiais pedindo documentos
e pergunta Tovarisica Salej (Camarada Salej).Mamãe entregou
documentos e nos levaram.Ficamos numa casa, policiais perguntando
o que fazíamos e para onde íamos.Mamãe
tentava justificar uma viagem, quando o policial disse para
ela para não mentir porque sabiam que nos íamos
fugir.Sabiam que mamãe tinha na bolsa as gotas que faziam
minha irmã dormir.Um major da policia levou minha irmã para
a casa dele para lhe dar comida e ai nos separaram.
Meu pai já estava na Itália, minha mãe
foi presa e condenada num processo grandioso do qual o primo
do meu pai que nos visitava fazia parte como principal acusado
apesar de morrer durante os interrogatórios, sete anos
de prisão com trabalhos forcados e perda de cidadania
por dez anos.Minha irmã foi adotada por uma família
e foi par um lugar que ate hoje não descobrimos quem
são e onde e o lugar.E eu fui para um reformatório
aos cinco anos de idade.Apreendi conviver com crianças
de varias idades, sem pais,amar a pátria socialista
e cantar Internacional em varias línguas.Era bem calado,
chorava muito e tinha problema no joelho caindo sempre fugindo
de brigas e confusões.Não sabia onde estava minha
irmã,meu pai e minha mãe.O mundo se estreitou,ficou
limitado as ordens e obediência e eu achei que começou
guerra de novo.
Ai apareceu meu tio Milos, irmão mais velho do meu
pai.Ele me levou para a aldeia onde morava, perto do lugar
onde nasceu meu pai.Apesar eu ter sido educado na cidade grande,
na capital da Eslovênia e mudei para uma cidadela de
1000 habitantes, achava melhor do que ficar no Febem socialista.Minha
avo, Antonia ainda morava no sitio que ela tinha, nas montanhas,
e eu gostava muito dela.Ela sempre guardava uvas para meu aniversario
em outubro, quando em geral uvas já viravam vinho.Era
paciente comigo e me defendia nas brigas com meu primos mais
fortes e menos urbanos e frescos que eu. Eu era da cidade e
eles do campo.Uns tempos depois encontraram minha irmã.Ai
veio a briga de duas tias que queriam ficar com ela.Briga interessante:a
minha irmã já com mais de dois anos sentada no
pinico e as duas tias brigando por posse dela.Saiu faísca
por todo lado, as acusações morais sobre a vida
de uma e de outra (uma era irmã do meu pai , e outra
casada com meu tio paterno),educação dos filhos
e tudo que v.pode imaginar.Ganhou Teta (tia) Micka, a irmã que
levou minha irmã para fazenda e lhe deu com meu tio
uma vida tranqüila, saudável e educação
primorosa.E a briga era por causa das remessas que meu pai
mandava de Itália, do campo de refugiados e que representavam
uma ajuda substancial naquela época pós guerra
e inicio de socialismo.Alias muitos anos depois meu tio, o
marido da que perdeu a posse da minha irmã, não
teve duvida de dizer quando apontaram para minha irmã :olha
que menina bonitinha,de quem e.Respondeu:daquela mulher e apontou
par a minha mãe que era nesta época faxineira
na estrada de ferro após ter saído da prisão.
Meus tios e meus primos me adotaram mesmo.Eu fui para escola,
ganhei os prêmios por ter escrito textos bonitos,tive
piolho e era muito chato e aplicado.Sabia noticias da cidade
toda e meu tio adorava.Minha tia que era da Macedônia,era
como minha mãe.Não sabia escrever esloveno, só escrevia
com letras gregas e era ótima mãe.Cuidava de
mim igual aos seus dois filhos, que eu considerava irmãos,
Peter e Boris.Mas, eu era mais uma boca para alimentar.Vida
era difficil e apertada, assim de vez em quando passava uma
temporada na casa de outros dois tios inclusive na fazenda
onde estava minha irmã.A situação estava
tão apertada que no dia que minha mãe voltou
de prisão, com uma caixa de papelão e roupas
do dia que foi presa vindo pelo caminho de neve para casa da
minha tia fazendeira, meu tio disse para me levar porque eles
não agüentavam mais me alimentar.Mamãe nunca
perdou isso, ou melhor nunca esqueceu, mas eu lembro deles
com muita ternura como minha irmã lembra
da tia que a criou e de duas primas e do tio carinhoso
que tinha apelido
de Povz, aquele bichinho com casinha nas costas
que
anda bem devagar.
A escola que eu frequentava era legal.Apreendi muito, freqüentava
aulas de religião com um padre muito alegre que era
amigo de uma das tias casadas com irmão do papai.Aulas
de religião eram fora da escola.Na cidade tudo mundo
se conhecia e assim um dia minha avo me levou de manha no medico
que examinou minha urina com maior tecnologia colocando o vidro
contra luz e dizendo que esta tudo bem.Bem, já que esta
tudo bem pequei as esqui e me mandei esquiar.Ai estou ouvindo
um menino gritar meu nome e quando me encontrou cheio de neve
deu recado :diretor da escola mandou ir para escola de tarde
já que você esta bem.E claro fui com toda boa
vontade do mundo ao ponto de 55 anos depois não ter
esquecido o episodio.Também não esqueci longas
horas após a escola que tive que reescrever os textos
para escola e eu ganharmos os prêmios.Que droga.Acho
que quando vi primeira maquina de escrever quase morri de alegria
de tanta raiva que tinha que escrever com uma pena metálica
de pior qualidade e a tinta.Ou a lápis mas a letra era
tão ruim que borracha passeava pelo caderno
e quase arrancava papel de tanto limpar.
Também tinha a vida política interessante.Uma
vez vi levados pela corrente igual escravos nos séculos
passados e acompanhados pelo policiais e cães um grande
grupo de pessoas.Eram guerrilheiros ante comunistas que se
denominavam Cruzados e tinham como líder alguém
com apelido de Anão.Fiquei com esta imagem transportada
para a imagem da minha mãe na prisão, que eu
visitava de vez em quando.No inicio , ela contou isso mais
tarde, não a reconhece porque a visitei quase dois anos
depois da prisão.Mamãe não tinha facilidade
para visitas.Lembro que já um pouco maior fui visitar
ela na prisão em Ljubljana e não me deixaram
ver ela porque foi punida disciplinarmente e não podia
receber visitas.Nos viajamos de trem horas e eu com uma esperança
sem fim.Um dia deu para mim e para a minha irmã umas
caixinhas na forma de coração que ela confeccionou
na prisão.
A cidadela, chamada Sentjur era famosa por seus compositores.E
tinha uma escola agrícola ainda do tempo de Império
Austro Húngaro.Apreendi nadar no rio vizinho a cidade,
brincávamos nas florestas e colhíamos frutas
silvestres para vender.Foi construído um Centro comunitário
com cinema.E ai apreende escovar dentes e colocar a mão
na frente da boca quando tossia.Coisa simples,mas fundamental.E
os tempos andavam na construcao do socialismo.Iugoslavia rompeu
com União Soviética e muita gente foi presa por
ser comunista soviético.Inclusive um professor nosso
da cidade.E no dia da morte de Stalin, este ano fez 50o anos,professora
perguntou docemente na sala de aula, o que falaram disso nas
nossas casa.Eu que era muito aparecido levantei a mão
e disse:Meu primo Peter falou que finalmente o cachorro morreu.Muito
bem. E anotou.Muito tempo depois fiquei sabendo que sorte teve
meu primo por ter dito isso,porque por ordem da Udba, policia
política,os professores eram obrigados perguntar aos
alunos o que era pensamento e conversa, e passar a informação
a policia.
Foi assim que apreendi conviver e viver.Na casa de minha avo
onde não tinha eletricidade, conversávamos,comíamos
muito frutas secas e eu ajudava carregar água morro
acima em barris de carvalho nas quais se carregava uva quando
de colheita da uva.Apreendi cuidar das macieiras,dos campos
de batatas, da única vaca que tínhamos e de viver
na neve e frio. O melhor era um grande forno do lado da cozinha
servia de forno e do lado da sala para esquentar a casa e onde
dormíamos quando fazia frio.Minha avo era de uma inteligência
extra ordinária.Com meu avo sempre ausente trabalhando
como gastarbeiter (nome alemão para trabalhadores imigrantes)
tinha eu dar pão para seus filhos e os educou com mão
de ferro.A ~filha mais velha casou numa boa fazenda, a tal
que adotou minha irmã, e outros cinco todos tiveram
que aprender uma profissão.São que na época
você tinha que pagar para apreender uma profissão.E
ele conseguiu isso.três eram sapateiros, meu pai açogueiro/salsicheiro
e ultimo entrou para movimento guerrilheiro –os partisans-
durante a guerra, combateu os nazistas e ia ser o primeiro
da família do meu pai que terminaria o curso secundário.Morreu
de enfarte fazendo exame final.E minha avo tinha um irmão,
Jorge-Jurij, que era um craque para fazer negócios.Tinha
um dos melhores restaurantes da região, açogue
e meu pai foi muito ajudado por ele, como eu também
mais tarde.Em resumo educação de negócios
e de trabalho, dedicação ao estudo na base de
amor e se necessário uma porradinha também.Era época
que isso funcionava inclusive nas escolas.Eu mesmo levava muita
porque era distraído e escrevia mal.E ai mostrava a
mão e bum.Até hoje não consegui entender
como eu podia ter letra melhor se apanhava na mão.Pensava
que isso endireitava a minha mão, mas hoje não
tenho tanta certeza.
Terminado o ciclo de prisão da minha mão e meu
pai já no Brasil, de onde nos tínhamos sempre
noticia.Envelopes do correio aéreo, com tarja verde
amarela e uma letra sofrida de um lugar longe que gente olhava
no mapa e ninguém conhecia direito.Nos mudamos para
a cidade de Celje, uma cidade industrial, a terceira maior
da Eslovênia aonde eu só ia de trem e conhecia
cinema.Aliás, uma vez fomos eu com meus primos para
a cinema lá assistir Tarzan.E minha tia Magda preparou
matula de melhro qualidade.Ovos cozidos, pão, presunto
cozido.Claro que levamos escondido para cinema e começamos
comer.O melhor que fomos chamados foi de caipiras e expulsos
de cinema.Agora eu vim morar com minha mãe nesta cidade.Fui
para quarta serie que começa em setembro.Um outono lindo,
sol lindo, folhas douradas de arvores, eu novato na cidade
e escola.Olhei pela janela, os pensamentos voaram para aldeia
de onde eu vim e comecei simplismente suviar.Na maior tranqüilidade,
até que ouvi um estrondo e grito:Salej você pensa
que ainda está no interior.Era minha querida professora
que me colocou no devido lugar e espaço.
Passamos a morar num super barraco com mais umas cem pessoas.Um
quarto que era tudo, cozinha, quarto, sala e dormitório
e um banheiro turco com ducha para uso comum.De um lado rio,
sujo e mundo, e de outro lado estrada de ferro e pátio
de manobra.Mas mamãe tinha emprego de faxineira numa
das divisões da estrada de ferro e começamos
a vida juntos.Minha irmã educada de um jeito, eu de
outro e mamãe tentando manter a família.Ate que
veio uma enchente que levou tudo e quase destriui o baraco.Eu
tinha feito um abajour , acho que ai começou meu encnato
com negocio de iluminação,para levar para escola
dia seguinte.De madrugada a água suja com uma força
inesquecível levou tudo.Você nunca mais esquece
isso.Eu não se existe outra coisa pior do que enchente.Ratos
voando com água suja, você não consegue
nadar, pessoas gritando pelo socorro e água com uma
força e barulho ensurdecedor.Sobrevivemos com problemas
de pele ate hoje e passamos morar num vagão com outros
alguns meses.Dia seguinte na escola perguntaram quem tinha
sofrido enchente e eu levantei e dei enereço.Praça
Marechal Tio 1 ª A mesma professora que me acrdou aquela
vez disse que lá não tinha enchente.Claro na
Praça Marechal Tito não pderia ter enchente.
O lugar mais importante da cidade tinha nome do Marechal, como
poderia ter enchente.Nem deus era besta de fazer isso.Lá não
tinha,mas o nosso numero por ironia era 1 a e lá teve
sim.Dia seguinte veio distirbuir os donativos e me deu umas
meias vlehas.Não tive duvida :Obrigado, não aceito
coisa velha e lá não tinha enchente.Só que
eu não sabia que minha mãe foi liberada sob condicional.E
ai foi chamada na policia e avisada que educação
assim não dá, ela tem que me educar em bom cidadão
socialista.Aliás, ela foi chamada mais muitas
vezes por causa do meu comportamento.Eu exercia
minha rebeldia .
Minha irmã e eu ajudávamos a minha mãe
na limpeza de escritórios.Minha irmã mais do
que eu.Eu não era bom com trabalhos físicos,
mas na hora de limpar chão sujo de neve e lama, eu pensava
como inventar enceradeira e outras maquinas para ajudar na
limpeza .Durante o inverno nos tinhamos que comprar carvão
e não tinhamos dinheiro.Ai eu subia nos trens parados
cheios de carvão e enchia os sacos e fugia para que
pudessemos esquentar a casa.A comdia era escassa.Crianças
brincávamos de alemaes e partisans e sempre era difficil
arrumar alguém para ser alemão porque
este tinha que correr da gente e morrer.
Um dia uns vagões com sacos de cimento descarrilharam
e me chamaram para ajudar.Carreguie aos doze anos os sacos
e ganhei meu primeiro dinheirl.Fiz amizade com maquinistas
das marias fumaças e andava com eles ajudando carregar
o carvão e dirigir a locomotiva.Um dia um deles me perguntou
se eu queria ser maquinsita e eu respondi:Não, quero
ser engenheiro mecânico.As coisas andavam com mais fome
e menos fome e eu fui para colégio de gente grande:Gimnazija
Celje.O primeiro colégio que há quase um século
e meio começou ensinar na língua eslovena.Excelentes
professores, hora legalis, você só podia estar
na rua ate uma determinada hora e um ensino de primeira.Comecei ´participar
de teatro,organizamos na sexta seria feito a mão jornal
da turma, escrevi uma peça teatral e levei um tremendo
choque elétrico na hora de ligar o abajur transformado
em refletor.Comia merenda fornecida pelos americanos, um queijo
amaraleo e um colega que me dava ´parte da merenda dele
todo dia.Mesmo um dia brigamos, ele não conversava comigo,
mas mesmo assim deixava parte da sua merenda para mim porque
sabia que era única comida que eu tinha.Durante
ano inteiro.
Um dia eu resolvi botar para quebrar.Eu participava de uma
peça infantil, naturalmente era o príncipe,e
fotografo que tirou fotos da peça queria me vender as
mesmas.Eu achava que devia me dar as fotos.Ele ou seja quem
for.Como eu pdoeria comprar as fotos se não tinhamso
dinheiro para comer.Ai na véspera de apresentação,
teatro cheio entrei em greve.Nem Deus me convencia que eu ia
entrar no palco se tivesse que pagar as fotos.E xingava o governo,
estado, Marechal Tito,fotografo e tudo que parecia.E claro
não ia ter teatro sem Príncipe.Atéq eu
me convenceram, mamãe foi duramente apreendida e ameaçada
e eu ganhei as fotos.
No meio tempo também aconteceu que fui melhor aluno
do Colégio, mas não pdoia ganhar o premio proque
meu pai era emigrado politol e mãe ex prisoneira.Papai
ainda tinha inteligência para escrever dizendo que se
eu ganhasse o premio, que era uma viagem para colônia
de férias na Áustria, ele vinha me buscar.E isso
era inadmissível para o regime.Rapto e fuga.Como correspondência
era censurada, eu não fui a lugar algum.Ai pensei comigo:desse
jeito nos não vamos a lugar algum.Eu sei quem eu sou,
eu sei o que eu penso, eu sei os valores dos meus pais, agora
vamos sobre viver até ver o que acontece.E comecei participar
de atividades estudantis.Fui escoteiro, líder dos escoteiros,
fiz curso de noite sobre marxismo-leninsmo, três anos
duas vezes por semana,reeditei jornal da escola, fui presidente
de circulo literário,e aos quinze anos comecei escrever
para jornal local.Assinava com letra minúscula * bs*
e ai comecei escrever para jornal do Partido Comunista esloveno
que por sinal pagava ótimos honorários e era
ativo na organização de Juventude Socialista.
Mas pões ativo nisso.Fazia discursos, era membro do
Comitê regional e fazia cursos e mais cursos
e discursos e mais discursos.
Fundei com mais uns amigos Clubes Juvenis para Nações
Unidas e fui seu primeiro Secretário Geral.Aliás,
clubes foram criados no Kosovo, que fazia também parte
da Iugoslávia e eu os criei na Eslovenia. Estudávamos
a política internacional, sabiamos tudo das Nações
Unidas e discutiamso como gente grande.Um ex prisoneiro da
Auswitz, Franc Klec, nos ajudava e apreendi escrever a maquina
o que era gloria para mim.Vida agitada que nos levava participar
inclusive da Sociedade de Naç~eos |Undias da Eslvoenia,
presidida por um dos mais improtantes políticos eslovenso
da época.A coisa era tão seria que criou toda
uma geração de diploamtas eslovenos.Era uma janela
para mundo, que deu oportundiade para se desenvolver as pessoas
como atual Secretario Gral adjunto das Naç~eos
Unidas, dr.Danilo Turk, que me sucedeu tempos depois
no cargo que eu
ocupei com fundador aos quinze anos.
Nos conseguimos devido a esta posição política
um apartamento melhor, saímos de barraco, eu consegui
ser taé Comandante de uma Brigada Juvenil de Trabalhos
Voluntários com 150 membros que trablhou na construção
de uma estrada.Era muito comum que durante as férias
os jovens iam trabalhar um mês como voluntários
na reconstrução do pais.Cosengui até ganar
depois o premio de melhro aluno e ir para Áustria e
Itália.Na Austria com treze anos apreendi muito de viver
num outro pais, com outras pessoas.Ajudava carregar água
par aum grupo de alemães e ganhava dinheiro assim .A
corria para pegar folhetos de cidades que a gente visitava
para depois vender pa colegas.No fim economizei tanto que consegui
comprar para minha mãe e irmã um presente.
Minha irmã ganhou um concurso itnernacional da Unesco
de deesenho infantil e era muito talentosa para desenhar.Eu
era um bom aluno, bem relacionado, mas não consegui
ganhar a elei~ção para o preesidente dio Grêmio
estudantil do Coelgio.Perdi minha primeira elei~ção.Podia
ser muitas coisas, mas líder não.Não entedi
isso na época, mas uns vinte anos depois o colega que
ganhou me disse que eu não podia ser pro ser filho de
emigrado poltiico.Ou seja, eu ganhei mas não levei.
A nossa vida estava melhorando, se consolidando com todas
as difficuldades que já eram menores.Nos estávamos
quase comprando uma maquina de lavar rooupa, quando meu pai
começou escrever dizendo que vai nos chamar para vir
ao Brasil.Eu sabi muito do Brasil porque era Embaixador do
Brasil nos Clubes das Naç~eos |Unidas.Mas claro não
tinha a noção da vida no Brasil.Papai escrevia
que Brasil produzia as coisas de nylon.Meias e camisas.Como
eu conhecia só meias de nylon, não imaginava
como eram camisas.Mandava postais de São Paulo.Num deles
conteis mais de 150 automóveis.Acho que ra mais do que
existia na cidade de Celje.Sabia do café, sabia do JK
e da Brasília.Mas, não imaginava nada além
disso. Nos não tinhamos mínima noção
como seria a nossa vida.Nos consolidamos uma fase da vida,eu
ganhava dinheiro e tinha uma posição social com
perspec tiva,minha irmã estudava bem e assim ia a vida.Na
cidade morava também meu avo paterno, que me levava
de pequeno no mercado para vender as cestas de vime que ele
fazia.Ai foi apreendendo fazer negócios com frequeses
de olho nos olhos e marginalizados pela máfia de mercado
que não nos dava lugar.Freqüentava escola de musica,
apreendi tocar trompete, mas me pediram para ir embora porque
agenciava os colegas para tocarem nas festas.Namorávamos,
brigávamos, mamae ia regularmente ao teatro, minha irmão
ganhou campionato de patisn na cidade ou seja tudo era mais
ou menos consolidado.Eu era entusiasta temporário do
governo do Marechal Tito desenvolvendo meu dotes políticos.Um
ano a gente ouvia de professores que os capitalistas eram mal
do mundo e que os filhos de capitalistas que ainda existiam
na Eslovênia e Iugoslávia tinham que ser convertidos.E
ai eu discutia com meu colega, hoje um prospero comerciante
na Europa, que a política de não alinhamento
da Iugoslávia com viagens babescas do marechal Tito
pelo mundo no seu navio chamado Galeb (gaivota) eram necessárias.Horas
de discussão que nenhum de nos dois esqueceu ate hoje.
Tudo isso de repente parou.Parou o tempo, como um filme interrompido
aos dezeseis anos de repente. Era o tempo de jazz
quente na Europa, Esther Williams, Tarzan, primeiros beijos e namoros,lendo
John do Passos e admirando Arthur Miller com qual
em
me parecia
usando óculos que regiamente joguei na cabeça
da minha irmã e quebrei.Mundo dividido, bombas atômicas,
no final só treze anos após o termino de Segunda
Guerra mundial e socialismo marchando com fazce mais humana
ou não.África aderindo ao não alinhamento
do Marechal Tito, a política de terceiro bloco,Tito
falando em Celje aos eslovenos que estão comendo muito
pão feito de trigo, pão branco enquanto Iugoslávia
tem que exportar trigo para pagar suas contas e ser um pais
forte.E dia seguinte acabou se o pão branco nas padarias
e trigo nas prateleiras.Chegavam primeiros turistas e a gente
já não estudava russo, mas servo- croata, inglês,
francês,e até latim, e esperanto.Começamos
entender que estamos na Europa e no mundo.
A decisão de ir para Brasil não foi fácil.Eu
relutava com todas as minhas forças.Tentei ir para Escola
Militar pa me sustentar, caso minha mãe fosse para Brasil.Um
professor convenceu para bem da pátria a mame que eu
não devia ir lá.Conseguiram uma bolsa ´para
mim, mas a bolsa acabou no segundo ano graças a uma
professora muito zelosa que achava que as bolsas eram para
filhos de verdadeiros devotos ao regime.Meus amigos não
tinham condição de me manter, meus tios foram
claros que já nos sustentaram e mamãe calculou
que seria a faxineira o resto da vida e que era melhor enfrentar
o incerto, do que o certo incerto.Papai não
prometia a terra de mel, mas prometia um futuro melhor.
A festa de despedida no colégio foi ótima.Com
jaz e inesquecivel disco de Glenn Miller tocando Pensilvânia
4500.Saias largas de moças, nos com cabelo caindo na
testa e nada de bebida e nada do rolo.Amizade rolando, rolando
até a despedida na estação da estrada
de trem.Outros amigos da política me fizeram uma bela
despedida com álbum e foto do colégio.Amigos
que se tornaram grandes figuras da politica iugoslava e depois
da independência eslovena.Um deles virou vice primeiro
ministro da Iugoslávia aos 332 anos, outro foi responsável
pela educação e o mais fiel de todos
virou Presidente de Tribunal de Contas da Eslovenia
por dez anos.Nunca nos esquecemos.
Amigos para sempre.
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