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OPINIÃO

Artigo

  • Senta e pensa.

18/9/2003

Faz uma reflexão sobre o ocorreu na sua vida.De repente estou navegando no tempo e espaço da vida das pessoas, dos acontecimentos e saindo do futuro para passado e vice-versa.

Assim me vejo nascendo no meio de uma guerra, com privilegio de nascer num hospital, na cidade recém largada pelo Italianos e recém conquistada pelos alemães.Mas de fato só me lembro de minha vida a partir de uns três anos.Pai mestre salsicheiro que passou maior parte da guerra entre negócios e prisões e campos alemães, mãe que era garçonete expulsa de Berlin nos idos trinta de uma família de 14 irmãos cada um nascido num castelo porque meu avo era engenheiro agrônomo que administrava as grandes propriedades agrícolas geralmente dominadas pelos castelos.O avo paterno era mineiro na Áustria, deixou seis filhos e morreu de silicose.E ai eu berrando pelo pão e carne desde pequenino, já que o vizinho de baixo era padeiro.Assim vi nascer primeira aliança estratégica que nos fez bem durante e após a guerra-padeiro e salsicheiro.Pão e carne e uma enorme clientela procurando os dois produtos.

Papai era bom de negócios.Vendia e comprava cavalos, transportava pela cidade com cavalos) os carros eram escassos) e tinha salsicharia com açougue.Tínhamos ate cavalo de corrida.E depois por minha insistência ele comprou um cavalo chamado Gidran ,preto,árabe, muito bonito.Nos fomos a primeira corrida no hipódromo,eu todo arrumado ate com cabelo penteado e ai esperando a primeira vitória do meu Gidran.Veio a primeira derrota para uma égua e a lição de que a certeza de vitória pode se transformar em derrota.E ai não adianta chorar e espernear, e eu era bom nisso, porque já foi derrotado.O outro cavalo Sokol passou a ter todas as minhas atenções ate o dia que meu pai me colocou num domingo de Páscoa no limbo dele, Sokol se assustou e eu cai.Mas não cai em qualquer lugar,cai acima d euma pedra que e usada na Eslovênia para dividir as propriedades.Lá apreendi de novo que a gente pode cair do cavalo e que tem uma pedra que divide as terras.E mais que esta pedra e irremovível e sagrada.

Nestas memórias ainda vai uma de furar o olho no arame farpado,que me provocou o trauma de avental branco por causa de médicos que me trataram e trataram bem para eu não perder a vista.Em compensação tive ódio de barbeiro que usava o mesmo avental branco e parece que isso se arrasta ate hoje porque são raros os momentos que ando de cabelo arrumado.Mas gostosas mesmo eram minhas visitas ao açougue do meu pai.Senhora bom dia, como vai.Uma delicadeza sem fim.A carne escassa envolta em bom humor e bom preço, no jornal velho que reduzia o peso da carne e aumentava a receita.E eu no caixa mexendo com dinheiro sem saber de que se tratava exatamente, mas sabia que por ai andava o mundo.

Nossa vizinhança era ótima, morávamos em casa quase que na periferia da cidade e perto da casa tinha um restaurante onde meu pai passava às vezes para visitar o dono e amigo.E eu passava lá para beber kraherel,era groselha com sifão, já que refrigerantes não existiam, muito menos Coca Cola na socialista Iugoslávia.Gostava muito do dono de restaurante.Ate que um dia minha mãe disse que Lado,o dono, morreu.Morreu, como morreu.Foi esfaqueado por um bosniaco.Apesar de muita trauma de guerra que ainda existia por todo lado,mas ai eram os alemães que matavam, não sabia que existiam bosniacos e matavam com faca quando não tinha guerra.Foi encontro com a morte direta,chocante e inevitável para o resto da vida.

Antes de mudarmos da casa, nasceu minha irmã.Eu queria mesmo era irmão e queria que se chamasse Mihael, nome do meu avo e meu tio que me adotou mais tarde e que eu gostava muito.Mas nasceu irmã, bonitinha, fofinha, chamada Ana que ganhou apelido de Nuska.Eu inabalável na defesa de meu reino queria jogar ela pela janela.E ai para me cooptar me deram a função de alimentar ela com mamadeira.Cumpri a minha missão com perfeição:minha irmã emagrecia e eu engordava.Ate que me pegaram em flagrante tomando a mamadeira dela.Ai foi um deus nos acuda.Castigo de ajoelhar no milho no canto e começar dividir as atenções e o reino.Alias milho foi outra coisa que deu problema.Começaram distribuir milho para fazer polenta e pão porque faltava trigo.E eu não tive duvida.Falei para todo mundo que não éramos galinhas para comer milho. E ai socialismo começou bater na porta.Mamãe que cuidava de nos exemplarmente foi chamada na policia para explicar minhas atitudes ante socialistas.E imaginem a minha mãe tentando explicar que tem um filho pequeno que tem uma língua grande e que não precisa de incentivo para falar bobagem.Ate hoje minha mãe não consegui explicar isso.

Papai foi perdendo negócios, fecharam as empresas, a rigidez de novo regime não permitia empresários e perdendo tudo virou operário numa fabrica de fivelas para cintos.Virou metalúrgico.Chegava em casa preocupado, apesar de que ainda tinha poupança, mas perdeu o rumo de negócios, o que ele sabia fazer bem.Trabalhava em algo que nada tinha que ver com ele.Conosco morava uma prima dele, que estudava e trabalhava no serviço meteorológico.E nos visitava outro primo do meu pai, que só vinha de noite.Às vezes de noite o nossa cachorra, chamava se Sera, latia e papai dizia que era Udba, policia política, que estava vigiando a casa.De repente um dia meu pai nos abraçou, chorou e pegou a bicicleta e foi embora.Mamãe não dizia muito para onde ele foi, só que nos vamos nos encontrar com ele.E de fato alguns meses depois, no ano de 1949,eu com cinco anos de idade e minha irmã com um ano e pouco, pegamos o trem e fomos para uma cidade perto da fronteira na Itália.Quando chegamos numa fazenda, a dona dizia para irmos embora porque a Udba sabia que íamos fugir da Iugoslávia.A prima que morava conosco foi de trem ate a cidade, depois voltou.Ela arrumou um remédio para minha irmã dormir e não chorar.Meia volta volver e pegamos na cidade famosa por sua grutas, Postojna, trem de volta.De repente ouvimos policiais pedindo documentos e pergunta Tovarisica Salej (Camarada Salej).Mamãe entregou documentos e nos levaram.Ficamos numa casa, policiais perguntando o que fazíamos e para onde íamos.Mamãe tentava justificar uma viagem, quando o policial disse para ela para não mentir porque sabiam que nos íamos fugir.Sabiam que mamãe tinha na bolsa as gotas que faziam minha irmã dormir.Um major da policia levou minha irmã para a casa dele para lhe dar comida e ai nos separaram.

Meu pai já estava na Itália, minha mãe foi presa e condenada num processo grandioso do qual o primo do meu pai que nos visitava fazia parte como principal acusado apesar de morrer durante os interrogatórios, sete anos de prisão com trabalhos forcados e perda de cidadania por dez anos.Minha irmã foi adotada por uma família e foi par um lugar que ate hoje não descobrimos quem são e onde e o lugar.E eu fui para um reformatório aos cinco anos de idade.Apreendi conviver com crianças de varias idades, sem pais,amar a pátria socialista e cantar Internacional em varias línguas.Era bem calado, chorava muito e tinha problema no joelho caindo sempre fugindo de brigas e confusões.Não sabia onde estava minha irmã,meu pai e minha mãe.O mundo se estreitou,ficou limitado as ordens e obediência e eu achei que começou guerra de novo.

Ai apareceu meu tio Milos, irmão mais velho do meu pai.Ele me levou para a aldeia onde morava, perto do lugar onde nasceu meu pai.Apesar eu ter sido educado na cidade grande, na capital da Eslovênia e mudei para uma cidadela de 1000 habitantes, achava melhor do que ficar no Febem socialista.Minha avo, Antonia ainda morava no sitio que ela tinha, nas montanhas, e eu gostava muito dela.Ela sempre guardava uvas para meu aniversario em outubro, quando em geral uvas já viravam vinho.Era paciente comigo e me defendia nas brigas com meu primos mais fortes e menos urbanos e frescos que eu. Eu era da cidade e eles do campo.Uns tempos depois encontraram minha irmã.Ai veio a briga de duas tias que queriam ficar com ela.Briga interessante:a minha irmã já com mais de dois anos sentada no pinico e as duas tias brigando por posse dela.Saiu faísca por todo lado, as acusações morais sobre a vida de uma e de outra (uma era irmã do meu pai , e outra casada com meu tio paterno),educação dos filhos e tudo que v.pode imaginar.Ganhou Teta (tia) Micka, a irmã que levou minha irmã para fazenda e lhe deu com meu tio uma vida tranqüila, saudável e educação primorosa.E a briga era por causa das remessas que meu pai mandava de Itália, do campo de refugiados e que representavam uma ajuda substancial naquela época pós guerra e inicio de socialismo.Alias muitos anos depois meu tio, o marido da que perdeu a posse da minha irmã, não teve duvida de dizer quando apontaram para minha irmã :olha que menina bonitinha,de quem e.Respondeu:daquela mulher e apontou par a minha mãe que era nesta época faxineira na estrada de ferro após ter saído da prisão.

Meus tios e meus primos me adotaram mesmo.Eu fui para escola, ganhei os prêmios por ter escrito textos bonitos,tive piolho e era muito chato e aplicado.Sabia noticias da cidade toda e meu tio adorava.Minha tia que era da Macedônia,era como minha mãe.Não sabia escrever esloveno, só escrevia com letras gregas e era ótima mãe.Cuidava de mim igual aos seus dois filhos, que eu considerava irmãos, Peter e Boris.Mas, eu era mais uma boca para alimentar.Vida era difficil e apertada, assim de vez em quando passava uma temporada na casa de outros dois tios inclusive na fazenda onde estava minha irmã.A situação estava tão apertada que no dia que minha mãe voltou de prisão, com uma caixa de papelão e roupas do dia que foi presa vindo pelo caminho de neve para casa da minha tia fazendeira, meu tio disse para me levar porque eles não agüentavam mais me alimentar.Mamãe nunca perdou isso, ou melhor nunca esqueceu, mas eu lembro deles com muita ternura como minha irmã lembra da tia que a criou e de duas primas e do tio carinhoso que tinha apelido de Povz, aquele bichinho com casinha nas costas que anda bem devagar.

A escola que eu frequentava era legal.Apreendi muito, freqüentava aulas de religião com um padre muito alegre que era amigo de uma das tias casadas com irmão do papai.Aulas de religião eram fora da escola.Na cidade tudo mundo se conhecia e assim um dia minha avo me levou de manha no medico que examinou minha urina com maior tecnologia colocando o vidro contra luz e dizendo que esta tudo bem.Bem, já que esta tudo bem pequei as esqui e me mandei esquiar.Ai estou ouvindo um menino gritar meu nome e quando me encontrou cheio de neve deu recado :diretor da escola mandou ir para escola de tarde já que você esta bem.E claro fui com toda boa vontade do mundo ao ponto de 55 anos depois não ter esquecido o episodio.Também não esqueci longas horas após a escola que tive que reescrever os textos para escola e eu ganharmos os prêmios.Que droga.Acho que quando vi primeira maquina de escrever quase morri de alegria de tanta raiva que tinha que escrever com uma pena metálica de pior qualidade e a tinta.Ou a lápis mas a letra era tão ruim que borracha passeava pelo caderno e quase arrancava papel de tanto limpar.

Também tinha a vida política interessante.Uma vez vi levados pela corrente igual escravos nos séculos passados e acompanhados pelo policiais e cães um grande grupo de pessoas.Eram guerrilheiros ante comunistas que se denominavam Cruzados e tinham como líder alguém com apelido de Anão.Fiquei com esta imagem transportada para a imagem da minha mãe na prisão, que eu visitava de vez em quando.No inicio , ela contou isso mais tarde, não a reconhece porque a visitei quase dois anos depois da prisão.Mamãe não tinha facilidade para visitas.Lembro que já um pouco maior fui visitar ela na prisão em Ljubljana e não me deixaram ver ela porque foi punida disciplinarmente e não podia receber visitas.Nos viajamos de trem horas e eu com uma esperança sem fim.Um dia deu para mim e para a minha irmã umas caixinhas na forma de coração que ela confeccionou na prisão.

A cidadela, chamada Sentjur era famosa por seus compositores.E tinha uma escola agrícola ainda do tempo de Império Austro Húngaro.Apreendi nadar no rio vizinho a cidade, brincávamos nas florestas e colhíamos frutas silvestres para vender.Foi construído um Centro comunitário com cinema.E ai apreende escovar dentes e colocar a mão na frente da boca quando tossia.Coisa simples,mas fundamental.E os tempos andavam na construcao do socialismo.Iugoslavia rompeu com União Soviética e muita gente foi presa por ser comunista soviético.Inclusive um professor nosso da cidade.E no dia da morte de Stalin, este ano fez 50o anos,professora perguntou docemente na sala de aula, o que falaram disso nas nossas casa.Eu que era muito aparecido levantei a mão e disse:Meu primo Peter falou que finalmente o cachorro morreu.Muito bem. E anotou.Muito tempo depois fiquei sabendo que sorte teve meu primo por ter dito isso,porque por ordem da Udba, policia política,os professores eram obrigados perguntar aos alunos o que era pensamento e conversa, e passar a informação a policia.

Foi assim que apreendi conviver e viver.Na casa de minha avo onde não tinha eletricidade, conversávamos,comíamos muito frutas secas e eu ajudava carregar água morro acima em barris de carvalho nas quais se carregava uva quando de colheita da uva.Apreendi cuidar das macieiras,dos campos de batatas, da única vaca que tínhamos e de viver na neve e frio. O melhor era um grande forno do lado da cozinha servia de forno e do lado da sala para esquentar a casa e onde dormíamos quando fazia frio.Minha avo era de uma inteligência extra ordinária.Com meu avo sempre ausente trabalhando como gastarbeiter (nome alemão para trabalhadores imigrantes) tinha eu dar pão para seus filhos e os educou com mão de ferro.A ~filha mais velha casou numa boa fazenda, a tal que adotou minha irmã, e outros cinco todos tiveram que aprender uma profissão.São que na época você tinha que pagar para apreender uma profissão.E ele conseguiu isso.três eram sapateiros, meu pai açogueiro/salsicheiro e ultimo entrou para movimento guerrilheiro –os partisans- durante a guerra, combateu os nazistas e ia ser o primeiro da família do meu pai que terminaria o curso secundário.Morreu de enfarte fazendo exame final.E minha avo tinha um irmão, Jorge-Jurij, que era um craque para fazer negócios.Tinha um dos melhores restaurantes da região, açogue e meu pai foi muito ajudado por ele, como eu também mais tarde.Em resumo educação de negócios e de trabalho, dedicação ao estudo na base de amor e se necessário uma porradinha também.Era época que isso funcionava inclusive nas escolas.Eu mesmo levava muita porque era distraído e escrevia mal.E ai mostrava a mão e bum.Até hoje não consegui entender como eu podia ter letra melhor se apanhava na mão.Pensava que isso endireitava a minha mão, mas hoje não tenho tanta certeza.


Terminado o ciclo de prisão da minha mão e meu pai já no Brasil, de onde nos tínhamos sempre noticia.Envelopes do correio aéreo, com tarja verde amarela e uma letra sofrida de um lugar longe que gente olhava no mapa e ninguém conhecia direito.Nos mudamos para a cidade de Celje, uma cidade industrial, a terceira maior da Eslovênia aonde eu só ia de trem e conhecia cinema.Aliás, uma vez fomos eu com meus primos para a cinema lá assistir Tarzan.E minha tia Magda preparou matula de melhro qualidade.Ovos cozidos, pão, presunto cozido.Claro que levamos escondido para cinema e começamos comer.O melhor que fomos chamados foi de caipiras e expulsos de cinema.Agora eu vim morar com minha mãe nesta cidade.Fui para quarta serie que começa em setembro.Um outono lindo, sol lindo, folhas douradas de arvores, eu novato na cidade e escola.Olhei pela janela, os pensamentos voaram para aldeia de onde eu vim e comecei simplismente suviar.Na maior tranqüilidade, até que ouvi um estrondo e grito:Salej você pensa que ainda está no interior.Era minha querida professora que me colocou no devido lugar e espaço.

Passamos a morar num super barraco com mais umas cem pessoas.Um quarto que era tudo, cozinha, quarto, sala e dormitório e um banheiro turco com ducha para uso comum.De um lado rio, sujo e mundo, e de outro lado estrada de ferro e pátio de manobra.Mas mamãe tinha emprego de faxineira numa das divisões da estrada de ferro e começamos a vida juntos.Minha irmã educada de um jeito, eu de outro e mamãe tentando manter a família.Ate que veio uma enchente que levou tudo e quase destriui o baraco.Eu tinha feito um abajour , acho que ai começou meu encnato com negocio de iluminação,para levar para escola dia seguinte.De madrugada a água suja com uma força inesquecível levou tudo.Você nunca mais esquece isso.Eu não se existe outra coisa pior do que enchente.Ratos voando com água suja, você não consegue nadar, pessoas gritando pelo socorro e água com uma força e barulho ensurdecedor.Sobrevivemos com problemas de pele ate hoje e passamos morar num vagão com outros alguns meses.Dia seguinte na escola perguntaram quem tinha sofrido enchente e eu levantei e dei enereço.Praça Marechal Tio 1 ª A mesma professora que me acrdou aquela vez disse que lá não tinha enchente.Claro na Praça Marechal Tito não pderia ter enchente. O lugar mais importante da cidade tinha nome do Marechal, como poderia ter enchente.Nem deus era besta de fazer isso.Lá não tinha,mas o nosso numero por ironia era 1 a e lá teve sim.Dia seguinte veio distirbuir os donativos e me deu umas meias vlehas.Não tive duvida :Obrigado, não aceito coisa velha e lá não tinha enchente.Só que eu não sabia que minha mãe foi liberada sob condicional.E ai foi chamada na policia e avisada que educação assim não dá, ela tem que me educar em bom cidadão socialista.Aliás, ela foi chamada mais muitas vezes por causa do meu comportamento.Eu exercia minha rebeldia .

Minha irmã e eu ajudávamos a minha mãe na limpeza de escritórios.Minha irmã mais do que eu.Eu não era bom com trabalhos físicos, mas na hora de limpar chão sujo de neve e lama, eu pensava como inventar enceradeira e outras maquinas para ajudar na limpeza .Durante o inverno nos tinhamos que comprar carvão e não tinhamos dinheiro.Ai eu subia nos trens parados cheios de carvão e enchia os sacos e fugia para que pudessemos esquentar a casa.A comdia era escassa.Crianças brincávamos de alemaes e partisans e sempre era difficil arrumar alguém para ser alemão porque este tinha que correr da gente e morrer.

Um dia uns vagões com sacos de cimento descarrilharam e me chamaram para ajudar.Carreguie aos doze anos os sacos e ganhei meu primeiro dinheirl.Fiz amizade com maquinistas das marias fumaças e andava com eles ajudando carregar o carvão e dirigir a locomotiva.Um dia um deles me perguntou se eu queria ser maquinsita e eu respondi:Não, quero ser engenheiro mecânico.As coisas andavam com mais fome e menos fome e eu fui para colégio de gente grande:Gimnazija Celje.O primeiro colégio que há quase um século e meio começou ensinar na língua eslovena.Excelentes professores, hora legalis, você só podia estar na rua ate uma determinada hora e um ensino de primeira.Comecei ´participar de teatro,organizamos na sexta seria feito a mão jornal da turma, escrevi uma peça teatral e levei um tremendo choque elétrico na hora de ligar o abajur transformado em refletor.Comia merenda fornecida pelos americanos, um queijo amaraleo e um colega que me dava ´parte da merenda dele todo dia.Mesmo um dia brigamos, ele não conversava comigo, mas mesmo assim deixava parte da sua merenda para mim porque sabia que era única comida que eu tinha.Durante ano inteiro.

Um dia eu resolvi botar para quebrar.Eu participava de uma peça infantil, naturalmente era o príncipe,e fotografo que tirou fotos da peça queria me vender as mesmas.Eu achava que devia me dar as fotos.Ele ou seja quem for.Como eu pdoeria comprar as fotos se não tinhamso dinheiro para comer.Ai na véspera de apresentação, teatro cheio entrei em greve.Nem Deus me convencia que eu ia entrar no palco se tivesse que pagar as fotos.E xingava o governo, estado, Marechal Tito,fotografo e tudo que parecia.E claro não ia ter teatro sem Príncipe.Atéq eu me convenceram, mamãe foi duramente apreendida e ameaçada e eu ganhei as fotos.

No meio tempo também aconteceu que fui melhor aluno do Colégio, mas não pdoia ganhar o premio proque meu pai era emigrado politol e mãe ex prisoneira.Papai ainda tinha inteligência para escrever dizendo que se eu ganhasse o premio, que era uma viagem para colônia de férias na Áustria, ele vinha me buscar.E isso era inadmissível para o regime.Rapto e fuga.Como correspondência era censurada, eu não fui a lugar algum.Ai pensei comigo:desse jeito nos não vamos a lugar algum.Eu sei quem eu sou, eu sei o que eu penso, eu sei os valores dos meus pais, agora vamos sobre viver até ver o que acontece.E comecei participar de atividades estudantis.Fui escoteiro, líder dos escoteiros, fiz curso de noite sobre marxismo-leninsmo, três anos duas vezes por semana,reeditei jornal da escola, fui presidente de circulo literário,e aos quinze anos comecei escrever para jornal local.Assinava com letra minúscula * bs* e ai comecei escrever para jornal do Partido Comunista esloveno que por sinal pagava ótimos honorários e era ativo na organização de Juventude Socialista. Mas pões ativo nisso.Fazia discursos, era membro do Comitê regional e fazia cursos e mais cursos e discursos e mais discursos.

Fundei com mais uns amigos Clubes Juvenis para Nações Unidas e fui seu primeiro Secretário Geral.Aliás, clubes foram criados no Kosovo, que fazia também parte da Iugoslávia e eu os criei na Eslovenia. Estudávamos a política internacional, sabiamos tudo das Nações Unidas e discutiamso como gente grande.Um ex prisoneiro da Auswitz, Franc Klec, nos ajudava e apreendi escrever a maquina o que era gloria para mim.Vida agitada que nos levava participar inclusive da Sociedade de Naç~eos |Undias da Eslvoenia, presidida por um dos mais improtantes políticos eslovenso da época.A coisa era tão seria que criou toda uma geração de diploamtas eslovenos.Era uma janela para mundo, que deu oportundiade para se desenvolver as pessoas como atual Secretario Gral adjunto das Naç~eos Unidas, dr.Danilo Turk, que me sucedeu tempos depois no cargo que eu ocupei com fundador aos quinze anos.

Nos conseguimos devido a esta posição política um apartamento melhor, saímos de barraco, eu consegui ser taé Comandante de uma Brigada Juvenil de Trabalhos Voluntários com 150 membros que trablhou na construção de uma estrada.Era muito comum que durante as férias os jovens iam trabalhar um mês como voluntários na reconstrução do pais.Cosengui até ganar depois o premio de melhro aluno e ir para Áustria e Itália.Na Austria com treze anos apreendi muito de viver num outro pais, com outras pessoas.Ajudava carregar água par aum grupo de alemães e ganhava dinheiro assim .A corria para pegar folhetos de cidades que a gente visitava para depois vender pa colegas.No fim economizei tanto que consegui comprar para minha mãe e irmã um presente.

Minha irmã ganhou um concurso itnernacional da Unesco de deesenho infantil e era muito talentosa para desenhar.Eu era um bom aluno, bem relacionado, mas não consegui ganhar a elei~ção para o preesidente dio Grêmio estudantil do Coelgio.Perdi minha primeira elei~ção.Podia ser muitas coisas, mas líder não.Não entedi isso na época, mas uns vinte anos depois o colega que ganhou me disse que eu não podia ser pro ser filho de emigrado poltiico.Ou seja, eu ganhei mas não levei.

A nossa vida estava melhorando, se consolidando com todas as difficuldades que já eram menores.Nos estávamos quase comprando uma maquina de lavar rooupa, quando meu pai começou escrever dizendo que vai nos chamar para vir ao Brasil.Eu sabi muito do Brasil porque era Embaixador do Brasil nos Clubes das Naç~eos |Unidas.Mas claro não tinha a noção da vida no Brasil.Papai escrevia que Brasil produzia as coisas de nylon.Meias e camisas.Como eu conhecia só meias de nylon, não imaginava como eram camisas.Mandava postais de São Paulo.Num deles conteis mais de 150 automóveis.Acho que ra mais do que existia na cidade de Celje.Sabia do café, sabia do JK e da Brasília.Mas, não imaginava nada além disso. Nos não tinhamos mínima noção como seria a nossa vida.Nos consolidamos uma fase da vida,eu ganhava dinheiro e tinha uma posição social com perspec tiva,minha irmã estudava bem e assim ia a vida.Na cidade morava também meu avo paterno, que me levava de pequeno no mercado para vender as cestas de vime que ele fazia.Ai foi apreendendo fazer negócios com frequeses de olho nos olhos e marginalizados pela máfia de mercado que não nos dava lugar.Freqüentava escola de musica, apreendi tocar trompete, mas me pediram para ir embora porque agenciava os colegas para tocarem nas festas.Namorávamos, brigávamos, mamae ia regularmente ao teatro, minha irmão ganhou campionato de patisn na cidade ou seja tudo era mais ou menos consolidado.Eu era entusiasta temporário do governo do Marechal Tito desenvolvendo meu dotes políticos.Um ano a gente ouvia de professores que os capitalistas eram mal do mundo e que os filhos de capitalistas que ainda existiam na Eslovênia e Iugoslávia tinham que ser convertidos.E ai eu discutia com meu colega, hoje um prospero comerciante na Europa, que a política de não alinhamento da Iugoslávia com viagens babescas do marechal Tito pelo mundo no seu navio chamado Galeb (gaivota) eram necessárias.Horas de discussão que nenhum de nos dois esqueceu ate hoje.

Tudo isso de repente parou.Parou o tempo, como um filme interrompido aos dezeseis anos de repente. Era o tempo de jazz quente na Europa, Esther Williams, Tarzan, primeiros beijos e namoros,lendo John do Passos e admirando Arthur Miller com qual em me parecia usando óculos que regiamente joguei na cabeça da minha irmã e quebrei.Mundo dividido, bombas atômicas, no final só treze anos após o termino de Segunda Guerra mundial e socialismo marchando com fazce mais humana ou não.África aderindo ao não alinhamento do Marechal Tito, a política de terceiro bloco,Tito falando em Celje aos eslovenos que estão comendo muito pão feito de trigo, pão branco enquanto Iugoslávia tem que exportar trigo para pagar suas contas e ser um pais forte.E dia seguinte acabou se o pão branco nas padarias e trigo nas prateleiras.Chegavam primeiros turistas e a gente já não estudava russo, mas servo- croata, inglês, francês,e até latim, e esperanto.Começamos entender que estamos na Europa e no mundo.

A decisão de ir para Brasil não foi fácil.Eu relutava com todas as minhas forças.Tentei ir para Escola Militar pa me sustentar, caso minha mãe fosse para Brasil.Um professor convenceu para bem da pátria a mame que eu não devia ir lá.Conseguiram uma bolsa ´para mim, mas a bolsa acabou no segundo ano graças a uma professora muito zelosa que achava que as bolsas eram para filhos de verdadeiros devotos ao regime.Meus amigos não tinham condição de me manter, meus tios foram claros que já nos sustentaram e mamãe calculou que seria a faxineira o resto da vida e que era melhor enfrentar o incerto, do que o certo incerto.Papai não prometia a terra de mel, mas prometia um futuro melhor.

A festa de despedida no colégio foi ótima.Com jaz e inesquecivel disco de Glenn Miller tocando Pensilvânia 4500.Saias largas de moças, nos com cabelo caindo na testa e nada de bebida e nada do rolo.Amizade rolando, rolando até a despedida na estação da estrada de trem.Outros amigos da política me fizeram uma bela despedida com álbum e foto do colégio.Amigos que se tornaram grandes figuras da politica iugoslava e depois da independência eslovena.Um deles virou vice primeiro ministro da Iugoslávia aos 332 anos, outro foi responsável pela educação e o mais fiel de todos virou Presidente de Tribunal de Contas da Eslovenia por dez anos.Nunca nos esquecemos. Amigos para sempre.

 

 



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