- Continuidade e continuísmo
Definitivamente
não é uma prática política
brasileira mudar muita coisa quando mudam os governos. Durante
o processo eleitoral indicam-se sempre novas atitudes e novos
rumos, como base das promessas de campanha. Em algumas áreas
da economia, no entanto, parece não haver, por parte
dos candidatos, disposição ou clareza para promover
transformações. Isso apesar de os vários
segmentos econômicos e a população de modo
geral deixarem claro o que querem e o que não querem
mudar. Alguns temas estão em aberto. Não estão
claras, por exemplo, as opiniões e propostas dos candidatos
quanto às privatizações. Elas foram boas
para o país? Não foram? Como serão de
agora para frente? E não está suficientemente
claro qual será o papel do Estado na economia. (Não
se confunda, a propósito, com papel do Governo na economia.)
Dessa definição vai resultar maior ou menor grau
de privatizações, ou mesmo a revisão
das realizadas.
Independentemente do processo ocorrido até agora, estamos
diante de um mundo novo, de situações novas,
que precisam ser consideradas. É o caso do que está acontecendo
com o petróleo e seus derivados, com as telecomunicações,
um setor em profunda crise em âmbito mundial, com as
concessões nas áreas de transporte e energia.
Não se trata de criticar o que se fez, mas de pensar
na necessidade de atualização dos processos
perante novos desafios.
Outro tema que pode ser considerado batata quente é a
reforma universitária. Não há convergência
de opiniões nessa área. Sobram divergências
- provavelmente até mais do que no caso da reforma tributária.
Mas ninguém se esforça para definir pontos comuns.
Há muitas declarações e pouca objetividade. É importante
lembrar que as reformas na área da educação,
neste governo, apenas começaram. Obtiveram algum sucesso,
mas estamos longe de resultados que se sustentem a longo prazo.
A continuidade das ações nesse campo será fundamental.
Na área social também há pouco compromisso
de continuidade. Pouca atenção se dá a
alguns programas sociais bem-sucedidos, por não contarem
com organização e poder de pressão, como
há no setor econômico, em especial no financeiro.
Quanto a algumas iniciativas, como as da bolsa-escola e médico
de família, parece que não serão interrompidas.
Mas como ficam dezenas de outros programas?
Tivemos um belo exemplo de programa bem-sucedido, tanto do
ponto de vista social quanto do econômico, que foi o
programa do leite, no Governo Sarney. Acabou porque era do
Governo Sarney. O governo seguinte não foi capaz de
corrigir os erros eventuais e distorções operacionais
do programa e ter a humildade de continuar com ele. Resultado:
as crianças carentes perderam um alimento fundamental
para sua saúde, o setor leiteiro ficou enfraquecido,
reduziram-se empregos e renda no meio rural. Ganhou a vaidade
política.
Há em curso, no Brasil, um programa social que abrange
quase 400 municípios, considerado no exterior como o
melhor programa social em execução no mundo,
em áreas mais pobres. Trata-se do Projeto Alvorada.
Os prefeitos dos municípios envolvidos, em sua maioria,
estão fazendo um trabalho magnífico de mudança
cultural, com relação às formas de tratar
a questão da pobreza e do desenvolvimento. O que se
vai fazer com esse programa?
Vai virar um novo ticket leite? Vai acabar só porque
a maioria dos eleitores não está nos grotões
beneficiados e não há pressão organizda
do mercado financeiro para que continue? E porque os empresários
que se dizem socialmente responsáveis também
não defendem esses grotões? Seria uma pergunta
bem-vinda nos jantares fechados e uma oportunidade para muita
gente mostrar que não defende apenas seus cargos e salários.
Muitas outras questões se colocam na ordem da continuidade
e do continuísmo. Seria útil que os candidatos
a todos os cargos eletivos fizessem uma avaliação
do que deve continuar, com melhorias e correções,
e do que deve ser abandonado. Seria mais útil ainda
para o país que todos nós, eleitores, fizéssemos
essa avaliação e a repassássemos aos candidatos
-como já fizeram algumas pessoas e entidades empresariais.
Dar carta branca ao continuísmo é, com certeza,
pior do que não dar continuidade ao que se tem feito
de bom neste país.
Stefan Bogdan Salej, 58, é presidente da Rede Brasileira
de Cluster e Competitividade
Diario do vale
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