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Competição com economias industrializadas vai obrigar governo e iniciativa privada a reduzir custos na produção
Cláudio Loetz
Joinville - Governo e iniciativa privada têm de aplicar US$ 350 bilhões nos próximos cinco anos em melhoria e redução do custo de infra-estrutura para tornar a indústria nacional competitiva frente aos países industrializados e prepará-la para os desafios que advirão da implantação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). É o que afirmou o primeiro vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Stefan Salej, em visita a Joinville e Jaraguá do Sul, na sexta-feira.
Segundo ele, "a onda de renovação no chão de fábrica se esgotou", a não ser mediante introdução de mais tecnologia e desemprego. A CNI responsabiliza a carga tributária, cerca de 32% do Produto Interno Bruto (PIB), "pelos baixos salários que são pagos aos trabalhadores".
E critica os governos, nas três esferas - federal, estadual e municipal. Para o empresário, também presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, o setor público não deu sua contribuição para melhoria da qualidade de vida. E emenda: o Estado precisa "aproveitar melhor os impostos que recebe".
Defensor de maior apoio às exportações, Salej considera possível a indústria nacional dobrar as vendas externas, chegando a US$ 100 bilhões em 2002. Na opinião do empresário, o governo federal deveria conceder incentivos fiscais aos investidores estrangeiros decididos a produzir mercadorias no Brasil, mas destinadas ao mercado externo.
Salej não poupou críticas ao programa do candidato a presidente da República pela coligação liderada pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva. Para o vice-presidente da CNI, o programa de Lula não dá garantia ao empresariado de que prevalecerão propostas voltadas ao desenvolvimento social. Diz que "a democracia representativa e a economia de livre mercado são pressupostos vitais do progresso".
Entrevista: Stefan Salej
A Notícia - O presidente Fernando Henrique Cardoso, candidato à reeleição propõe dobrar as exportações brasileiras no ano 2002, comparativamente a valor atualmente exportado. Assim, o País chegaria a US$ 100 bilhões em vendas externas. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera factível se atingir esse montante?
Stefan Salej - A proposta de o Brasil dobrar as exportações é da CNI. Temos de incentivar as empresas a buscarem os mercados externos. Para tanto, torna-se necessário programa bem delineado. A Apex, criada com essa finalidade, é instrumento importante. O Brasil tem setores industriais muito desenvolvidos e preparados para competirem mundialmente.
AN - A competitividade das empresas brasileiras melhorou o suficiente para viabilizar aumento da inserção mundial da indústria nacional?
Salej - Tecnologia. Essa palavra é a chave para a indústria brasileira se desenvolver ainda mais. Sem dúvida, a competitividade será tanto maior quanto mais formos capazes de inovar e encontrar soluções que atendam à indústria e à melhoria da qualidade de vida da população. Santa Catarina é um Estado característico nesse aspecto. Aqui, um exemplo, é a Embraco, que produz grande maioria dos compressores para o mercado internacional. O País tem tradição exportadora em pelo menos algumas dezenas de setores e produtos.
AN - A união aduaneira do Mercosul precisa ser aperfeiçoada. Não lhe parece ser um bloco econômico pequeno demais e com menor poder de influência em face da União Européia, por exemplo? E em que estágio estão as conversas entre o Mercosul e a Alca?
Salej - O Mercosul é um bloco do tamanho certo para os países que o compõe. Está dando certo. O comércio intra-regional está melhorando muito. Concordo com alguns críticos, que dizem que temos de melhorar muito a competitividade do Mercosul em relação aos outros blocos, para sermos mais fortes na União Européia e nos outros mercados - o norte-americano e o asiático.
AN - Outra crítica que se faz é que o Brasil olha muito para dentro do Mercosul, e não valoriza como deveria as relações comerciais com os demais países. Essa observação lhe parece pertinente?
Salej - Observação que faço é que os novos investidores que estão vindo para o Brasil não são obrigados a fazer suas fábricas com produção voltada para a exportação. Todas as fábricas da indústria automobilística que estão se instalando no País acabam atendendo, em primeiro lugar, o mercado nacional; eventualmente o mercado do Mercosul, e com muito pouca probabilidade, no caso da Renault, de ser exportadora para fora do Mercosul.
AN - E isso é negativo?
Salej - Estamos dando incentivos fiscais para virem indústrias atenderem ao mercado brasileiro. Precisamos criar incentivos fiscais para virem indústrias para a plataforma de fabricação mundial.
AN - E a questão da Alca, em que pé está?
Salej - A Alca é uma realidade que está chegando. Como vamos responder a ela? Primeiro, o Brasil tem de investir em torno de US$ 350 bilhões para ter indústria competitiva, melhorar a infra-estrutura e reduzir seu custo, no período de cinco anos. Não há esse dinheiro. Nós - setor público e setor privado - não estamos investindo esse dinheiro. Outro ponto - que é o ponto fundamental do nosso desenvolvimento se chama tecnologia.
AN - Como a CNI enxerga Santa Catarina em relação a esse aspecto?
Salej - Sou presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Pra nós, mineiros, Santa Catarina é benchmarking de Estado. Aparentemente pequeno, mas com enorme força geradora de renovação e empreendedorismo.
AN - Qual é o papel que o Estado deve ter na economia brasileira?
Salej - Temos de definir não só o papel do Estado, mas antes temos de definir o modelo de democracia e da sociedade que queremos. A CNI está discutindo isso.
AN - E o que pensa a CNI a respeito?
Salej - Falo o que é o pensamento meu e de meus colegas de Minas Gerais, e de alguns outros companheiros. Não abrimos mão da democracia representativa, nem abrimos mão da economia de mercado. O Estado tem de ser eficaz para prestar serviço eficiente e produtivo ao cidadão. Aproveitar melhor os impostos que ele recebe. Os Estados, os municípios e a própria federação estão extremamente lentos na sua reorganização. A única coisa que se sabe é aumento de carga tributária.
AN - Que ultrapassa os 30% do PIB.
Salej - A carga tributária aumentou nos últimos anos. Estamos em 32% do Produto Interno Bruto (PIB) com a carga tributária. Ela é a grande geradora dos baixos salários do trabalhador na indústria e no setor produtivo em geral. Ou seja, o setor público não tem dado a sua contribuição para a redistribuição da renda, para a melhoria das condições sociais.
AN - E isso dificulta a competitividade...
Salej - Daqui pra frente não tem nenhuma condição de termos indústria competitiva, com preços e produtos competitivos, porque no chão da fábrica a onda de renovação se esgotou. A não ser com maior ingrediente tecnológico, com maiores investimentos em máquinas e com desemprego.
AN - Como se concilia esse diagnóstico do setor público com a onda de privatizações em curso no País?
Salej - Os processos de privatização, que estão em andamento, requerem um Estado eficaz na sua parte reguladora. A democracia pressupõe o Estado eficaz, um governo forte, mas também a sociedade controlando o governo de maneira forte.
AN - Há boa probabilidade de haver segundo turno nas eleições para presidente da República, este ano. Como o senhor analisa o quadro de uma disputa entre Fernando Henrique e Lula, que se prenuncia mais acirrada do que era anteriormente imaginado?
Salej - A democracia pressupõe, também, a existência de oposições; porém oposições responsáveis, com programas e compromissos com o país. E não com ideologias importadas, que levam a subdesenvolvimento social e político.
AN - A CNI já pensou em conversar com o candidato do PT à presidência da República para ouvir dele as propostas de governo e formular-lhe sugestões?
Salej - Ele sempre será bem-vindo na CNI. Somos uma casa de democracia. Está demonstrado, com muita clareza, que o programa do Fernando Henrique é o programa que nos garante desenvolvimento social, nos garante melhor redistribuição da renda e nos garante o crescimento - não das nossas indústrias, mas da sociedade.
AN - Como a CNI avalia o programa do candidato Lula?
Salej - O programa do candidato Lula merece nossas restrições quanto à garantia que vamos ter para fazermos o País mais justo socialmente, mais equilibrado economicamente. E que o capital privado, que é o grande eixo de desenvolvimento, gerador de empregos no País, tenha as garantias para ser o grande parceiro da sociedade brasileira.
AN - Quanto, em dinheiro, o empresariado vai colocar na campanha de FHC neste ano?
Salej - Sou mineiro. E mineiro tem um escorpião no bolso. A pergunta é muito bem feita, mas a resposta, para um mineiro, é muito difícil.
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