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Roselena Nicolau
“O boné branco com a inscrição Movimento dos Empresários pela Reforma Tributária e Trabalhista foi praticamente o único toque popular da inusitada passeata de senhores engravatados e senhoras de tailleur e terninhos que percorreu, ontem, não mais do que dois quarteirões e meio da capital mineira. Cerca de 800 empresários, para a Policia Militar, e 1.600 para os organizadores da Federação das Indústrias de Minas Gerais, não abandonaram os telefones celulares e, muitos, nem a pasta e as secretárias, para, ao som de Gonzaguinha – “A gente não tem cara de panaca, a gente não tem jeito de babaca” –, exigirem do governo federal agilidade na reforma tributária.
A passeata foi um sucesso. Os empresários, com representantes de diferentes estados, marcaram o ponto, desfazendo a preocupação do presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Stefan Salej, de que a manifestação se tornasse um fiasco. “Não houve desordem”, disse o idealizador aliviado. “Para a gente, era tudo uma incógnita total, não tínhamos experiência e nem idéia do que poderia acontecer”, confessou. A Fiemg se preparou realmente para tudo.
Seguranças – Se houvesse desordem, a Polícia Militar não seria capaz de conter, mesmo porque apenas um batedor e uma viatura acompanharam os empresários. Mas os costumeiros soldados PM que são vistos em manifestações de rua foram substituídos por 80 seguranças de ternos pretos e gravatas, que controlavam a movimentação com walky-talky e não deixaram acontecer nada aos manifestantes que estavam com as barbas de molho depois que autoridades, na semana passada, não escaparam de pauladas e ovo. Uma ambulância ficou estacionada pertinho dos manifestantes para qualquer eventualidade.
A concentração dos empresários começou por volta das 10h, na porta de um prédio da Fiemg, no Centro de Belo Horizonte. Com faixas que não deixavam dúvidas do que estavam reclamando – “Imposto sim, abuso não”, ou ainda “Imposto justo é o que produz desenvolvimento”, os empresários foram bem tratados desde cedo. Antes da marcha, garçons ofereciam água e biscoitinhos doces aos que tomaram o quarteirão. Os 1.200 bonés (número divulgado pela Fiemg) distribuídos foram adotados imediatamente por causa do sol ameno de inverno, dando um tom uniforme à passeata.
Gonzaguinha – Dois minutos de fogos, no estrondoso barulho de 10 mil tiros ecoado do alto do prédio da Fiemg, anunciou o início da nova empreitada dos empresários. O carro de som, um conhecido trio elétrico, liderou a passeata, entoando “É”, na voz de Gonzaguinha. O locutor dos empresários se esforçou para fazer com que a população – que assistiu ao desfile sem entender muito bem o que acontecia – e os trabalhadores se engajassem no “protesto”: “Trabalhador, você tem tudo a ver com essa luta. Junte-se a nós pela reforma tributária e trabalhista”.
Duzentos e setenta metros adiante, os empresários chegaram ao local chave da manifestação, a Praça Tiradentes, onde Tiradentes ganhou uma coroa de flores, com a inscrição “Libertas Quae Sera Tamen”. Depois de se refrescarem com copinhos de água mineral, depositados em um latão de gelo ao pé da estátua, os manifestantes cantaram o Hino Nacional e ouviram discursos curtos e empolgados com a possibilidade de repetirem o ato daqui para frente”
Jornal do Brasil, 25 de maio de 2000
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